Grupos religiosos na época de Jesus

Grupos religiosos na época de Jesus

O ministério terreno de Jesus foi cercado por movimentos de grupos filosóficos, políticos e religiosos que exerciam forte influência na vida do povo. Quando examinamos as páginas das Escrituras, mais especificamente os evangelhos, deparamo-nos com vários grupos religiosos. Alguns são bem conhecidos, como escribas, fariseus, sacerdotes e saduceus. Além desses, houve outros que, apesar de não terem o mesmo destaque, participaram de alguma forma da vida e ministério de Jesus, como herodianos, samaritanos, publicanos e zelotes.

Escribas

Os escribas ficaram conhecidos nas páginas do Novo Testamento como doutores da Lei por serem profundos conhecedores das Escrituras. Eles não podem ser estritamente definidos como uma seita, mas sim, membros de uma espécie de “academia” dos tempos bíblicos; por isso, se sentiam no direito de interpretar a Lei para o povo judeu.

Fariseus

“Fariseu” deriva de um vocábulo hebraico que significa “separado”. Denomina um grupo de judeus extremamente apegados à Torá, o livro sagrado dos judeus. Formavam, entre o povo judeu, uma espécie de comunidade à parte. Eram a elite do povo. Não se misturavam. Escribas e fariseus eram simpatizantes entre si. Há fortes indícios de que alguns escribas eram também.

Sacerdotes

A palavra “sacerdote”, em português, vem do latim sacer e significa “sagrado”, “separado”. Os sacerdotes eram ministros religiosos, habilitados para participar e conduzir as cerimônias religiosas de culto.

Saduceus

“Os saduceus compunham uma das mais importantes e influentes seitas judaicas, muitas vezes em oposição tanto política quanto teológica aos fariseus. Esta seita era amplamente constituída pelos elementos mais ricos da população. (…) Entre seus componentes se encontravam os sacerdotes mais poderosos, mercadores prósperos e a classe aristocrática da sociedade” (R.N. Champlin, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, vol. 6, p.30).

Herodianos

Os herodianos formavam mais um partido político do que um grupo religioso. Eram assim chamados por serem partidários assalariados da dinastia de Herodes. Herodes, o Grande, tentou romanizar a Palestina em sua época.

Mesmo sendo caracterizados como uma associação ou grupo político e tendo a antipatia do povo, os herodianos mantinham contato direto com os saduceus numa manobra política para eliminar Jesus.

Zelotes

Zelote é uma palavra grega que significa “zeloso”. Os zelotes tinham um intenso zelo por Deus (At 21.20). Era um grupo religioso com marcado caráter militarista e revolucionário que se organizou opondo-se à ocupação romana de Israel. Também eram designados sicários (sanguinários), devido ao punhal que levavam escondido e com o qual atacavam os inimigos. Não hesitavam em usar a força, a violência e as intrigas para alcançar seu objetivo, que era libertar a nação de Israel do jugo estrangeiro.

Temos o registro bíblico de que antes de ter-se convertido e ter sido chamado ao discipulado cristão, um dos doze apóstolos de Jesus, Simão, o Zelote, havia pertencido a esse partido revolucionário, que se caracterizava pelo fanatismo religioso.

O fato de Jesus ter convidado um membro desse grupo não significa que tinha intenção de promover uma revolta contra o império, mas sim de mostrar ao povo da época, bem como das gerações posteriores, que Sua mensagem era dirigida a todas as classes, fossem elas políticas, econômicas ou étnicas.

Publicanos

Costumava-se dizer: “Só os publicanos são ladrões”. Podemos afirmar sem medo de errar que na época de Jesus a profissão de publicano era a pior. Eles eram comparados aos pecadores da pior espécie. Quando um judeu exercia esse triste ofício, e, sobretudo, quando cobrava de seus irmãos o imposto destinado a Roma, era tratado com enorme desprezo.

Os essênios

Os essênios eram um grupo religioso entre os judeus, que tinha sua própria interpretação das Escrituras e queria manter a pureza do judaísmo. Eles eram uma comunidade bastante fechada e alguns se isolavam no deserto. A Bíblia não fala sobre os essênios.

Os essênios surgiram por volta do século II a.C. e ainda existiam no tempo de Jesus. Eles eram contra a mistura do judaísmo com valores gregos e queriam se afastar da influência pagã de outros povos. Alguns essênios viviam nas cidades, entre outros judeus, mas outros eram mais radicais e formaram comunidades no deserto, com pouco contato com outras pessoas.

De acordo com os historiadores dessa época, as leis dos essênios eram muito rígidas e valorizavam a comunidade, a partilha, a pureza e a dedicação a Deus. Eles tinham várias restrições alimentares e tentavam limitar seu contato com outras pessoas, para não serem contaminados com outras filosofias. Alguns estudiosos acreditam que os essênios escreveram os manuscritos do Mar Morto.

Embora eram conhecidos no tempo de Jesus, a Bíblia não faz nenhuma referência aos essênios. Eles não se envolviam na vida pública e provavelmente se mantiveram afastados de Jesus e seus seguidores.

 

 

 

Livros Apócrifos

Livros Apócrifos

O termo “apocryfa”(neutro plural do adjetivo grego apokryphos, “oculto”) é um termo técnico concernente a relação de certos livros para com o cânon do AT, no sentido que, apesar de não serem aprovados para o ensino público, não obstante tem valor para estudo e edificação particulares.

O Cânon é a Lista dos livros do AT e NT inspirados por Deus e, consequentemente, normativos para a fé e vida moral dos fiéis. O cânon dos livros inspirados formou-se definitivamente já na era apostólica. Mas houve dúvidas sobre determinados livros do AT e do NT, sobretudo entre o II e o IV séculos, devido à proliferação de livros apócrifos. Tais livros são chamados deuterocanônicos, porque foram reconhecidos como canônicos pela Igreja universal num segundo momento. Os deuterocanônicos do NT são: Hebreus, 2Pedro, Judas, Tiago, 2-3João e Apocalipse; os do AT são: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e 1-2Macabeus. Estes últimos não constam nas Bíblias editadas pelas Igrejas protestantes, que os consideram apócrifos. A Igreja Católica pronunciou-se definitivamente sobre o cânon no Concílio de Trento (1546).
Os livros apócrifos são escritos judaicos ou cristãos não usados na liturgia e na teologia. Promovem muitas vezes doutrinas estranhas e mesmo heréticas. Para recomendá-las aos leitores são apresentados como pretensas revelações de personagens bíblicos do AT e do NT. Mas não foram inseridos entre os livros canônicos. Há livros apócrifos tanto do AT como do NT. As Igrejas protestantes chamam de apócrifos aqueles livros do AT que os católicos consideram deuterocanônicos. Os que os católicos chamam apócrifos, os protestantes consideram pseudepígrafos (Falsos escritores. Livros que têm título falso, isto é, falsamente atribuídos a certo autor. Com este termo as Igrejas católicas englobam os livros do AT que na Igreja protestante são considerados apócrifos). Para o NT adotam a mesma terminologia dos católicos.

No concílio de Trento em uma sessão de 15 de Abril de 1546, decretou que 11 dos 16 livros apócrifos são canônicos. Este concílio pronunciou anátema contra qualquer que contrariasse as suas decisões. Este assunto foi motivo de séria controvérsia entre os anos 1821 e 1826 de que resultou a sua exclusão de todas as edições da Bíblia publicadas pela sociedade bíblica de Londres. A igreja anglicana, pelo tempo da reforma, nos seus 39 artigos (1563 e 1571), seguiu precisamente a maneira de ver de S. Jerônimo, não julgando os apócrifos como livros das Santas Escrituras, mas aconselhando a sua leitura “para exemplo de vida e instrução de costumes”. Permaneceram, pois, incluídos definitivamente na lista dos livros inspirados da igreja católica sete livros denominados deuterocanônicos. Os livros são considerados apócrifos pelas Igrejas protestantes; por isso não constam em suas Bíblias, como também nas Bíblias hebraicas.
Estes livros que, utilizados esporadicamente pelos padres da igreja ou pelos antigos escritores eclesiásticos, não foram aceitos pela igreja cristã ( apócrifos ).
A palavra apócrifo ( grego = apokrypha ), originalmente, significa oculto, mas passou a significar espúrio. Os livros apócrifos do AT são:

– Tobias: Um romance no tempo do cativeiro de Israel pela Assíria.
– Judite: Um romance no tempo de Nabucoconosor. Escrito cerca de 100 A.D.
– I e II Macabeus: Obras históricas de grande valor sobre a era dos Macabeus. Escritas cerca de 100 a.C.

– Sabedoria: Obra sapiencial, escrito por um judeu de Alexandria, cerca de 100 a.C.
– Eclesiástico: Parecido com o livro de Provérbios. Chama-se também a sabedoria de Jesus, filho de Siraque. Escrito cerca de 180 a.C.

– Baruc: Obra escrita cerca de 300 a.C. e que dá a entender ser de autoria de Baruc, o escriba de Jeremias.

Estes sete livros apócrifos, são aqueles ao qual encontramos na Bíblia católica, no entanto existem também outros 09 livros apócrifos do AT que são:
– I Esdras (Na vulgáta III Esdras)

– II Esdras (Na vulgáta IV Esdras)

– A parte restante de Ester

– Cântico dos Três Mancebos

– A História de Suzana

– Bel e o Dragão

– A Oração de Manassés

– III e IV Macabeus

Estes 16 livros são genuínos, mas não de inspiração divina e de autoridade igual à da Bíblia. Nunca fizeram parte do sagrado cânon, jamais foram citados por Cristo nem pelos apóstolos.
Servem-nos para exemplo de vida e instrução de costumes, ainda que sem autoridade em matéria de fé.

Os livros apócrifos do AT foram acrescentados as Sagradas Escrituras, pela primeira vez e contra a vontade dos judeus, na tradução do AT pelos LXX, em Alexandria no Egito, 282 a.C. E deve-se lembrar que o apóstolo Paulo lembrou depois: “Aos judeus foram confiados os oráculos de Deus”, Rm. 3:2. Há, também, alguns livros apócrifos do NT:
– O Evangelho Segundo Hebreus

– O Evangelho Segundo São Tiago

– Os Atos de Pilatos

– ETC.

É tão raro que se encontre um livro, não canônico, anexo a manuscritos do NT que nunca se tratou seriamente de incluir qualquer deles no Cânon.

Abaixo segue uma lista dos sete livros que são encontrados na Bíblia católica, e explicados um a um segundo a sua história.

Tobias
Tobias é um dos sete livros deuterocanônicos, isto é, incluídos definitivamente na lista dos livros inspirados da Igreja Católica só no Concílio de Trento (1546). O livro é considerado apócrifo pelas Igrejas protestantes; por isso não consta em suas Bíblias, como também nas Bíblias hebraicas.

Este livro deveria ser intitulado Tobit, o pai de Tobias e personagem principal desta bela historieta familiar de sabor patriarcal. O relato, de cunho novelístico, conta uma história edificante, na qual são atualizados e recomendados certos ensinamentos da Lei, dos Profetas e dos Sábios israelitas e pagãos: Um israelita piedoso, chamado Tobit, é deportado para Nínive, no tempo de Salmanasar, rei da Assíria, pouco antes da destruição de Samaria (722 a.C.). Depois de conquistar uma posição de influência junto a Salmanasar, é denunciado pelos ninivitas por dar sepultura aos seus correligionários, mortos pelo rei. Em conseqüência, perde todos os seus bens e pouco depois acaba ficando cego. Nesta desoladora situação, sua mulher Ana passa a afligi-lo, criticando a inutilidade das obras de misericórdia por ele praticadas. Tobit recorre então a Deus em sua oração e chega a desejar a morte. Lembra-se, porém, de um depósito em dinheiro que havia deixado com um certo Gabael, em Rages, na Média. Resolve por isso enviar para lá o seu filho Tobias para recuperar a quantia.

Simultaneamente em Ecbátana, na Média, outra família judia, parente de Tobit, está aflita: Sua filha única, Sara, havia perdido sete maridos na noite de núpcias, por maldade do demônio Asmodeu. Desesperada, Sara também reza. Deus envia então seu anjo Rafael, disfarçado na figura de Azarias, para resolver os problemas de Tobit e Sara. Azarias acompanha Tobias na viagem para Rages. Os dois viajantes hospedam-se na casa de Ragüel, parente de Tobit e pai de Sara. Rafael aconselha Tobias a pedir a mão de Sara, que seria curada do mau espírito pelo remédio extraído do peixe durante a viagem. O casamento se realiza, o dinheiro é recuperado e, na volta, Tobit é curado. Depois que ambas as famílias reencontram a felicidade, Rafael se revela e desaparece.
O relato é perpassado de orações de louvor e súplica (3,2-6.11-15; 8,5-8.15-17; 11,14; 13,1-18), de ensinamentos sapienciais (4,3-19; 12,6-20; 14,10s) e de cenas pitorescas e familiares: o choro de Ana na despedida do filho (05,17-23), o cão que acompanha Tobias (6,1; 11,4), a serva que com uma lâmpada vai espiar os noivos dormindo (8,13), a impaciente espera pela volta do filho (10,1-7).

Apesar de Tb estar incluído entre os livros históricos e das referências a fatos, lugares e personagens da história universal, não passa de um relato popular didático e de cunho edificante. As informações históricas são imprecisas e o autor não parece conhecer a geografia e a topografia dos locais onde a história se passa. Além de se valer da literatura legislativa, profética e sapiencial de Israel, o autor recorre à história e aos ensinamentos do sábio assírio Aicar, famosos em todo o Médio Oriente. Chega até mesmo a fazer de Aicar o sobrinho de Tobit (veja a nota em Tb 1,21-22).

O livro de Tobias foi escrito, provavelmente, em hebraico ou aramaico, mas o texto se perdeu. Conhecemos o livro pelas versões latina e grega. A versão latina é da Vulgata; S. Jerônimo a fez, corrigindo a versão latina anterior (Vetus Latina) com base num manuscrito aramaico. A versão grega é representada por dois grupos de manuscritos: Há uma versão mais longa, representada pelo códice Sinaítico do séc. IV d.C., e outra mais curta, em uso nas igrejas gregas e em algumas traduções modernas, representada pelos códices Vaticano e Alexandrino. Na presente tradução seguimos o códice Sinaítico, considerado o melhor, recorrendo ao texto mais breve nos casos de lacuna.
O livro de Tb foi escrito provavelmente por volta do ano 200 a.C. Seu autor é desconhecido e o local de composição ignorado. Os destinatários parecem ser os judeus da diáspora, isto é, que moram fora da Palestina. A estes judeus desprotegidos no meio dos pagãos, o autor propõe o exemplo de Tobias. Recomenda-lhes a confiança na providência divina, representada pelo anjo Rafael, a fidelidade à Lei, a prática da esmola, o amor aos pais, a oração e o jejum, a integridade do matrimônio e o cuidado e respeito pelos mortos. Quer mostrar que o israelita fiel a seu Deus e à sua religião nunca está só, mas é objeto da especial proteção divina. Manifesta também a esperança de que quando Deus reunir o seu povo de todas as nações (13,5), então também os pagãos se converterão ao Senhor para formarem um único povo de Deus (14,6s).

Judite
O livro recebeu o nome de seu personagem principal, uma mulher. Ela personifica os ideais religiosos e nacionais do judaísmo, que resiste às potências pagãs e opressoras de todos os tempos. No livro, elas são representadas por Nabucoconosor e por seu general Holofernes.
Na Primeira Parte do livro (c. 1–3) Nabucodonosor é apresentado como o vencedor dos medos e o conquistador do Ocidente. Na Segunda Parte (c. 4–7) se descrevem as angústias de Betúlia, uma cidade-fortaleza cercada por Holofernes, por ousar resistir ao seu avanço sobre Jerusalém. Esta parte é dominada pela figura do amonita Aquior, o qual, durante um conselho de guerra no acampamento de Holofernes, faz um resumo da história de Israel (c. 5 –6). Aquior aconselha a não atacar os judeus, sem antes verificar se eles são culpados diante de Deus; é que o povo eleito é salvo sempre que se mantém fiel ao seu Deus. Acusado de colaborar com o inimigo, Aquioré entregue nas mãos dos judeus e Betúlia é sitiada. A Terceira Parte (c. 8–16) descreve como a cidade, após trinta dias de cerco e sem água, está prestes a se render ao inimigo, sob a pressão da população angustiada. Neste momento intervém uma jovem viúva, piedosa e cheia de coragem.

Depois de se preparar com jejuns e orações dirige-se ao acampamento inimigo, fingindo querer entregar a cidade. Com sua beleza, astúcia e habilidade nas palavras, consegue engambelar Holofernes. No momento oportuno, após um banquete, decapita o general que estava bêbado e leva triunfante sua cabeça a Betúlia. Ao se verem sem chefe, os inimigos se põem em fuga e são facilmente desbaratados pelos judeus. Aquior se converte, o povo louva a Deus e a coragem de Judite e está compõe um cântico de ação de graças. O livro termina com sacrifícios de ação de graças em Jerusalém e uma notícia sobre a morte de Judite, após longa e feliz velhice.

Apesar do nacionalismo que transparece em todo o livro, Judite não foi incluído no cânon judaico; por isso as Igrejas protestantes o consideram “apócrifo”. Na Igreja Católica, após algumas dúvidas iniciais, sobretudo da parte de S. Jerônimo, o livro foi aceito como canônico e definitivamente incluído no cânon pelo Concílio de Trento (1546).
Judite foi escrito, provavelmente, em hebraico ou aramaico. Mas o texto que veio até nós é o da versão grega dos Setenta. A versão da Vulgata resultou de uma revisão que S. Jerônimo fez da antiga versão latina feita da versão grega, corrigida à luz de um texto aramaico. A nossa versão se baseia no texto grego da edição crítica da Septuaginta de Göttingen (R. Hanhart, 1979).

À primeira vista, Jt parece relatar fatos históricos. O episódio da libertação de Betúlia é colocado dentro de um contexto histórico; aparecem nomes de povos, pessoas e cidades e mencionam-se fatos que pertencem à história. Mas o leitor atento, logo notará que o interesse do livro não é histórico: Nabucodonosor é apresentado como rei dos assírios em Nínive (1,1.7.11; 4,1), ele que reinou na Babilônia (604-562 a.C.) quando Nínive já fora destruída (612 a.C.); o retorno do exílio da Babilônia é apresentado como um fato recente (4,3) e o templo como já reconstruído; há nomes de cidades e roteiros de campanhas militares puramente fictícios. O autor mistura com a maior naturalidade fatos históricos de épocas distintas. O episódio de Judite inspira-se em modelos relatados em outros livros bíblicos: nas figuras de Débora e Jael em luta contra o general cananeu Sísara (Jz 4–5), na astúcia de Simeão e Levi (Gn 34), de Tamar (Gn 38), de Aod (Jz 3,12-30) e de Gideão (Jz 6–8).

O livro de Judite é, pois, uma novela histórica, um escrito edificante (midraxe hagádico) para ilustrar a tese do autor a respeito do papel e do destino de Israel na história. O próprio nome da heroína principal é simbólico: Judite significa “a judia”. A mulher simboliza, portanto, a coragem que o autor quer transmitir aos judeus nos momentos trágicos de sua história.

O autor é um judeu desconhecido que, provavelmente, escreve na Palestina após o ano 150 a.C. Ele quer encorajar os seus contemporâneos, ainda traumatizados pela perseguição de Antíoco Epífanes, a se manterem fiéis à Lei de Deus e aos costumes da nação. Pois Deus está presente na história do povo eleito que se mantém fiel à sua fé, como o lembra Judite: “O nosso Deus está conosco” (13,11). Deus salva os que lhe são fiéis; quando os castiga, nem sempre é para punir possíveis pecados, mas para provar os que lhe estão próximos (8,25-27). Judite é, pois, um instrumento da justiça divina que age na história em favor de seu povo ameaçado. No caso de Holofernes é aplicada a lei do talião: Ele queria seduzir o povo eleito à idolatria (como Antíoco Epífanes); por isso foi seduzido e morto por uma mulher. Judite, enfim, é o modelo de fidelidade para todos que confiam e esperam na proteção divina. Deus é que salva. Mas ele pode exigir, como no caso de Judite, uma participação generosa e mesmo heróica de alguns para salvar o seu povo.


Macabeus
Os dois livros dos Macabeus são assim denominados por causa do apelido do mais ilustre filho de Matatias, Judas, chamado o Macabeu (“Martelo”). Não constam na Bíblia Hebraica e são considerados apócrifos pelos judeus e pelas Igrejas protestantes. Na Igreja Católica foram incluídos nas listas de livros canônicos desde o séc. IV. Definitivamente inseridos no cânon durante o Concílio de Trento (1546), os dois livros dos Macabeus completam a lista dos sete livros deuteronômicos. Ambos foram transmitidos em grego, mas 1Mc foi provavelmente traduzido de um original hebraico, que se perdeu. Nossa tradução segue a edição crítica, preparada por W. Kappler-R. Hanhart, da Septuaginta de Göttingen.

O tema geral dos dois livros é o mesmo: Descrevem as lutas dos judeus, lideradas por Matatias e seus filhos, contra os reis sírios (selêucidas) e seus aliados judeus, pela libertação religiosa e política da nação.

O PRIMEIRO LIVRO DOS MACABEUS se ocupa de um período mais amplo da guerra de libertação do que 2Mc. Começa com a perseguição de Antíoco Epífanes (175 a.C.) e vai até a morte de Simão (134 a.C.), o último dos filhos de Matatias. Depois de uma breve introdução sobre os governos de Alexandre Magno e seus sucessores (1,1-9), o autor passa a mostrar como Antíoco Epífanes tenta introduzir à força os costumes gregos na Judéia (1,10-63). Descreve a revolta de Matatias (2,1-70), cuja bandeira da libertação passa primeiro a Judas Macabeu (3,1–9,22), depois a seu irmão Jônatas (9,23–12,53) e pôr fim a Simão (13,1–16,24). Graças a estes três líderes, a liberdade religiosa é recuperada, o país se torna independente e o povo torna a gozar de paz e tranqüilidade.
O autor é um judeu da Palestina. Conhece bem os livros sagrados e imita a maneira tradicional de escrever história dos autores bíblicos. Deve ter composto sua obra pelo ano 100 a.C. De fato, não parece estar longe dos fatos narrados e tem simpatia pelos romanos, que ocupariam a Palestina em 63 a.C. Ao narrar as lutas pela libertação, o autor é sóbrio e procura ser objetivo. Mesmo assim, nota-se que tende a favor dos Macabeus e está contra os gregos e os judeus apóstatas, seus aliados.
Na luta de seus heróis ele vê uma “guerra santa”, a intervenção divina para salvar Israel. Deus, contudo, parece distante e separado dos homens, aos quais cabe a iniciativa nas ações. Por respeito ao nome de Deus, evita chamá-lo de “Senhor”. Refere-se a Deus com expressões como “Salvador de Israel” (4,30), “Céu” (3,18.19.60; 4,24; 12,15) ou “Ele”. Tem veneração pelos livros sagrados (1,56s; 3,48; 12,9), sobretudo pela Lei, intimamente ligada à aliança (2,22.27.50). Vê nas desgraças do povo um castigo por seus pecados e infidelidades. Mas procura levá-lo a confiar em Deus (3,20.53), pois ele não abandona os que lutam para lhe serem fiéis (2,61; 3,18; 4,10). Os heróis de 1Mc invocam a Deus antes das batalhas (4,10.30-33; 5,33; 7,40-42; 9,46; 11,71), certos de que mais vale a ajuda do Céu do que a força dos exércitos (3,19).

O SEGUNDO LIVRO DOS MACABEUS não é uma continuação dos fatos narrados por 1Mc. É antes um relato paralelo a 1Mc 1–7. Começa com os fatos do tempo do Sumo Sacerdote Onias III e do rei Seleuco IV (180 a.C.) e termina pouco antes da morte de Judas Macabeu, com a derrota de Nicanor (161 a.C.). Apresenta-se como um resumo de uma obra mais ampla, em cinco volumes, de um tal de Jasão de Cirene (2,19-32). Este Jasão mostra-se bem informado ao menos sobre a situação em Jerusalém, a administração selêucida e seu funcionalismo.

Não é fácil precisar até onde vai o trabalho do autor do resumo. Contudo, além de ter inserido duas cartas no início de sua obra escrita em grego, a ele devemos atribuir o prefácio (2,19-32) e o epílogo (15,37-39), além de algumas reflexões moralizantes (5,7-20; 6,12-17). O seu “resumo” consiste em se alongar em alguns episódios que lhe interessam; as partes onde é mais conciso que 1Mc servem para ligar tais episódios seletos.
O autor do resumo é um desconhecido, profundamente religioso, talvez um fariseu. É um apaixonado pela causa dos judeus e grande admirador de Judas Macabeu, seu herói principal. A obra de Jasão de Cirene deve ter sido composta em torno de 130 a.C. E o “resumo” deve ser posterior a 124 a.C. (data da primeira carta: 1,9) e anterior a 63 a.C., quando Jerusalém foi ocupada pelos romanos. Como se nota pelas duas cartas iniciais e pelo prólogo, o “resumo” foi composto em Alexandria e sobretudo para leitores da comunidade judaica local. O autor quer interessá-los na recente história conturbada dos judeus na Palestina, finalmente libertados por Deus através da iniciativa de Judas Macabeu, e convidá-los a participar na festa da Dedicação do Templo. Ao longo de seu livro quer deixar claro que Deus continua a amar, proteger e salvar o povo eleito, apesar do pecado de alguns de seus membros.

Para atingir o seu fim, recorre ao gênero literário, frequente no helenismo, da “história patética”. Isto é, os fatos históricos são embelezados com vários recursos literários de modo a levar o leitor a participar nos sentimentos de dor, repulsa, alegria e admiração do autor. Esta é também a finalidade das frequentes exortações e das aparições maravilhosas (14,15). Apesar do caráter religioso da obra, do gênero literário empregado e do exagero nas cifras de vítimas e forças militares em jogo, não faltam elementos históricos seguros na obra, inclusive documentos provavelmente autênticos (cf. 1,1–2,18; 9,19-27; 11,17-38).

Além dos temas doutrinários tradicionais, aparecem no livro alguns temas mais recentes, que terão repercussão no NT: a criação do mundo do nada (7,28), a ressurreição do justos no último dia (7 12,43-45; 14,46), a intercessão dos vivos pelos vivos (3,31-36) e pelos mortos (12,38-45), e dos santos no céu pelos vivos (15,11-16)

Cronologia dos Macabeus

Era
Selêucida-Cristã Texto

137-175 Antíoco Epífanes se torna rei: 1Mc 1,10

143-169 Vencedor no Egito, pilha o templo: 1Mc 1,20

145-167 Profanação do altar, revolta de Matatias: 1Mc 1,54

146-166 Morte de Matatias, substituído por Judas: 1Mc 2,70

147-165 Incursão de Antíoco na Mesopotâmia: 1Mc 3,37

148-164 O altar é novamente consagrado: 1Mc 4,52

149-163 Morte de Antíoco: 1Mc 6,16

150-162 Judas assedia a Cidadela de Jerusalém: 1Mc 6,20

151-161 Demétrio no trono selêucida: 1Mc 7,1

152-160 Báquides e Alcimo enfrentam Judas e este morre: 1Mc 9,3

153-159 Morte de Alcimo: 1Mc 9,54

160-152 Alexandre Epífanes, rei em Ptolemaida: 1Mc 10,1

160-152 Jônatas, Sumo Sacerdote: 1Mc 10,21

162-150 Casamento de Alexandre e Cleópatra, filha de Ptolomeu VI: 1Mc 10,57

165-147 Demétrio chega de Creta: 1Mc 10,67

167-145 Demétrio se torna rei: 1Mc 11,19

170-142 Israel sacode o jugo. Simão se torna rei: 1Mc 13,41

172-140 Demétrio prisioneiro de Arsaces: 1Mc 14,1

172-140 Inscrição em honra de Simão: 1Mc 14,27

174-138 Antíoco cerca Trifão em Dora: 1Mc 15,10

177-134 Morte de Simão, sucedido por João: 1Mc 16,14

169-143 Carta dirigida aos judeus do Egito: 2Mc 1,7

188-124 Carta enviada aos judeus do Egito: 2Mc 1,10

148-164 Cartas: 2Mc 11,21

148-164 Cartas: 2Mc 11,33

148-164 Cartas: 2Mc 11,38

149-163 Antíoco Eupátor ataca Judá: 2Mc 13,1

151-161 Alcimo visita Demétrio: 2Mc 14,4

Sabedoria
Título e conteúdo: Sabedoria é um dos cinco livros chamados sapienciais. Nos manuscritos gregos, língua original em que foi escrito, seu nome é “Sabedoria de Salomão”. Na Vulgata de São Jerônimo é chamado “Livro da Sabedoria”, nome pelo qual hoje é em geral conhecido.

O título até certo ponto se justifica, pois o livro pertence à corrente sapiencial que se honra do patrocínio do sábio rei Salomão. Tem contatos com os Provérbios, com o Eclesiástico e polemiza com o Eclesiastes. Como em Pr 8 e Eclo 24, a Sabedoria ocupa neste livro um lugar central. De fato, na primeira parte, após um convite para buscar a Sabedoria (1,1-15), o autor mostra a importância da Sabedoria no destino da humanidade (1,16–5,23); na segunda parte descreve a origem, a natureza, a ação da Sabedoria e aponta os meios para adquiri-la (6–9); por fim, na terceira parte (10–19), mostra como ela age na história de Israel (10,1–11,3).

Mas a partir de 11,4 a Sabedoria cede lugar a Deus, a seu sopro, a seu espírito, à sua palavra e ao seu poder. Mesmo assim, o autor continua a tratar do tema eminentemente sapiencial da retribuição dos justos e dos ímpios, abordado na primeira parte: Depois de explicar por que, às vezes, o justo também sofre (3,1-12), não tem filhos (3,13–4,6) e morre prematuramente (4,7-19), o autor insiste na tese da recompensa do justo e punição do ímpio após a morte. Nesta perspectiva, na terceira parte (10–19) faz um midraxe do êxodo, comprovando por vários exemplos do passado que o justo prospera enquanto o ímpio perece.

O autor é um desconhecido. Trata-se, sem dúvida, de um judeu helenista, piedoso e fiel à educação religiosa recebida dos pais (2,12); confia na onipotência do Deus dos pais (9,1), tem horror à idolatria, à imoralidade e ao laxismo dos pagãos (13–14) e sente orgulho de pertencer ao povo eleito (2,18).

Lugar e data: A insistência nos fatos do êxodo, que envolveram egípcios e israelitas, e a polêmica contra a adoração de divindades representadas por animais, torna provável o Egito como local de composição do livro; mais especificamente a cidade de Alexandria, onde vivia uma florescente comunidade judaica, interessada no diálogo entre o judaísmo e a cultura helenística.

O autor conhece a versão grega dos Setenta (séc. III a.C.), mas não parece conhecer Filo de Alexandria (15 aC-50 d.C.). Mostra-se preocupado com a ameaça de perseguições da parte de pagãos contra judeus piedosos, como as que se deram no Egito sob Ptolomeu VII (145-117) e Ptolomeu VIII (117-81). Tudo isso torna provável a composição do livro entre os anos 130 e 50 a.C.

Destinatários e finalidade do livro: O autor põe suas palavras na boca de Salomão, e as dirige aos seus colegas reis (1,1; 6,1-9.21), exortando-os a bem governar o povo (8,9-15). Mas os verdadeiros destinatários são outros: judeus de Alexandria e do Egito em geral e os pagãos entre os quais vivia a comunidade judaica. Aos seus irmãos de fé dirige palavras de encorajamento para resistirem às tentações da cultura helênica e permanecerem fiéis ao Deus da aliança. O tipo de vida do povo eleito, sua habitual resistência aos costumes pagãos (2,15-16) provocavam o ódio e o desprezo dos egípcios e até verdadeiras perseguições. Diante do perigo de apostasia que elas representavam, o autor quer despertar a fé na intervenção providencial de Deus em favor de seus fiéis, recordando-lhes os prodigiosos fatos do êxodo e a esperança na recompensa após a morte.
Quer levar os pagãos ao conhecimento do verdadeiro Deus, à descoberta do sentido último da vida humana e mostrar-lhes a superioridade da sabedoria judaica sobre a filosofia grega.

Do ponto de vista doutrinário, a grande novidade deste livro é a fé na recompensa após a morte: Deus fez o homem para a imortalidade ( incorruptibilidade:2,23), vista não como consequência de uma natureza imortal da alma, como na filosofia grega, mas como fruto do dom divino dado aos que lhe são fiéis. Aos maus, porém, espera a morte eterna. Ao homem cabe escolher no decorrer de sua vida terrena entre a vida, sendo fiel a Deus, ou a morte, colocando-se contra o seu Criador, na senda dos ímpios.
As reflexões do livro sobre a Sabedoria personificada, seu papel criador (7,12.22; 8,5s) e cósmico (7,24; 8,1), sua relação com o Espírito de Deus (1,16; 7,7.22s) e sua função na história da salvação (10–19) preparam as reflexões do NT sobre o mistério da pessoa divino-humana de Jesus Cristo, “a imagem do Deus invisível, primogênito de toda criatura”(Cl 1,15).


Eclesiástico
O Eclesiástico é chamado também Sirácida por causa do nome do autor, “Jesus filho de Sirac, filho de Eleazar de Jerusalém” (50,27). O título mais antigo parece ter sido “Sabedoria de Jesus filho de Sirac”. O nome Eclesiástico provém do título latino Ecclesiasticus; o livro era assim denominado nos manuscritos latinos, desde os tempos de São Cipriano († 258), por causa do uso que a Igreja fazia deste livro na catequese dos catecúmenos e neobatizados.

A obra reúne sentenças, máximas e provérbios às vezes sem nexo aparente, outras vezes agrupados em torno de um tema. Podem-se distinguir duas partes: de 1–23 e de 24–50, cada uma iniciada por um louvor à sabedoria. O capítulo final serve de apêndice. Outros preferem distinguir uma primeira parte (1,1–42,14) que reúne conselhos de caráter sobretudo moral, e uma segunda parte (42,15–50,29) que contém uma reflexão sobre as obras de Deus na criação e na história de Israel. Por motivos práticos dividimos o livro em cinco partes, além do apêndice (c. 51).

O próprio livro nos mostra o autor como um nobre de Jerusalém, que desde a juventude se dedicou com amor ao estudo da sabedoria e da Lei (51,18-30), preocupado em transmitir sua experiência aos outros (24,34;33,18). A obra foi escrita em hebraico entre os anos 200 e 175 a.C. É o que se deduz das informações do prólogo, escrito pelo neto do autor, quando este traduziu a obra de seu avô para o grego, pelo ano 130 a.C., no Egito. De fato, ainda não se percebe no livro o violento choque entre o judaísmo e a cultura helênica, que Antíoco Epífanes (175-163) quis impor mais tarde à força aos judeus, provocando a revolta dos Macabeus (167 a.C.). Mas as simpatias de certos setores do judaísmo pela cultura grega já se faziam notar. Com isso o perigo de uma mistura de culturas e de um sincretismo religioso se tornava cada vez mais evidente.
Para enfrentar esta ameaça o autor escreve sua obra, colocando-se na defesa dos valores religiosos e culturais do judaísmo, de sua concepção de Deus e do mundo. Quer reavivar nos leitores judeus a fé na sua eleição divina, mostrar-lhes que a Lei dada a Israel é superior ao pensamento grego, e que nela se encerra a verdadeira sabedoria. Esta consiste em última análise na conformidade da vida com a lei de Deus, para conseguir uma felicidade neste mundo. Para tanto, procura chegar a uma síntese entre a religião tradicional e os princípios da sabedoria, aprofundados na experiência pessoal do autor.

Do ponto de vista doutrinal, o Eclesiástico não apresenta progressos significativos em relação a Jó e Provérbios. A novidade maior talvez esteja em relacionar a sabedoria com a história de Israel (44,1–49,16). O homem é visto como uma criatura livre (15,14). Como tal, a ele cabe a responsabilidade do mal moral e não a Deus (15,11-13; 21,27; 25,24). Mas o temor de Deus (1,11-20) e a certeza da retribuição divina lhe dão a possibilidade de vencer o mal (31,10). A recompensa que Deus dá, porém, é ainda colocada nos limites da vida terrena (8,7; 14,17; 28,6; 40,1-11). A esperança numa recompensa após a morte só virá com Macabeus e Sabedoria.

O Eclesiástico não faz parte da Bíblia hebraica, fato pelo qual foi também excluído do cânon pelas Igrejas protestantes. Com isso os originais hebraicos foram se perdendo. A Igreja Católica, apesar de algumas reticências, por exemplo de São Jerônimo, acabou incluindo o Eclo definitivamente no cânon, no Concílio de Trento (1546). Entre 1896 e 1900, numa velha sinagoga do Cairo, no Egito, reencontrou-se parte do texto hebraico do Eclo. Entre 1931 e 1966 foram encontrados novos fragmentos, especialmente nas grutas de Qumrân e na fortaleza de Massada, perto do mar Morto. Com isso o texto hebraico hoje conhecido perfaz dois terços do livro. Nossa tradução segue o texto grego da edição de J. Ziegler (Göttingen 19802). Nos manuscritos gregos, por um acidente de transmissão, os capítulos 33,13b–36,16b foram removidos de seu contexto. A ordem certa dos capítulos é a das versões siríaca e latina, confirmada hoje pelos fragmentos hebraicos; é a ordem que seguiremos.

Baruc
Com o título geral de “Livro de Baruc” aparecem na Bíblia dois escritos diferentes: o livro de Baruc propriamente dito (c. 1–5) e a Carta de Jeremias (c. 6). Esta, aliás, nas edições gregas, é separada do livro pela inserção das Lamentações entre ambos.
Mas o próprio livro de Baruc tem uma composição complexa: além da introdução histórica, que situa a redação do livro na Babilônia, cinco anos após a destruição de Jerusalém (1,1-14), distinguem-se duas partes: a primeira, em prosa (1,15–3,8), é uma confissão dos pecados e uma súplica, a serem feitas pelos israelitas diante de Deus; a segunda, em verso (3,9–5,9), encerra uma exortação sapiencial (3,9–4,4) e um oráculo de restauração (4,5–5,9).

O autor é pós-exílico, talvez do século II a.C., mas atribui seu escrito ao discípulo e secretário de Jeremias, reproduzindo em 1,1 sua genealogia, apresentada em Jr 32,12. Assim, a situação do exílio é revivida pelos integrantes da Diáspora, ansiosos também eles pela restauração de Israel.

O principal ensinamento doutrinário é que as tribulações do povo eleito são consideradas conseqüência de suas infidelidades a Deus e à Lei. Esta, apresentada como o caminho da Sabedoria, é o meio de se restaurar a liberdade e a paz.
A “Carta de Jeremias”, inspirada na carta do profeta à primeira leva de exilados (Jr 29,4-23) e reproduzindo, quanto ao conteúdo, as idéias do seu oráculo contra os ídolos (Jr 10,1-16), desenvolve exaustivamente o tema já abordado pelo Sl 115 e pelo Segundo Isaías (Is 44,9-20 e 46,1-8). É um escrito pseudo-epigráfico, redigido também no século II, visando a preservar da idolatria os judeus dispersos.

Ambos os escritos não se encontram na Bíblia Hebraica: se redigidos originalmente em hebraico, como o dá a entender a versão de Teodocião (que só inclui textos traduzidos do hebreu o do aramaico), esse original se perdeu, restando apenas o texto grego. Por isso, integram o grupo dos deuterocanônicos. Ambos são preciosos como testemunho: são os únicos da Bíblia, além do de Tobias, que se referem à vida dos judeus dispersos, firmemente unidos, na contrição e na esperança, a seu povo.

OS LIVROS APÓCRIFOS DO NOVO TESTAMENTO

Sob este nome são algumas vezes reunidos vários escritos cristãos de primitiva data, que pretenderiam dar novas informações acerca de Jesus Cristo e seus apóstolos, ou novas instruções sobre a natureza do Cristianismo em nome dos pri­meiros cristãos. Ainda que casualmente algum livro não canônico se ache apenso a manuscritos do N. T., isto é contudo tão raro que podemos dizer que, na realidade, nunca se tratou seriamente de incluir qualquer deles no cânon.

As obras apócrifas do NT têm formas paralelas aos li­vros do NT. Já se sabe alguma coisa a respeito de mais de cinquenta evangelhos apócri­fos. Alguns deles foram conservados na sua totalidade, outros, em fragmentos, e ainda outros são conhecidos apenas pelo nome. Nestes, geralmente, o autor ocultou seu pró­prio nome e atribuiu sua obra a um apóstolo ou discípulo. Aqueles que estão disponíveis na sua totalidade são: Evangelho segundo os He­breus (há fragmentos do segundo século); O Proto-evangelho de Tiago (irmão do Senhor); o Evangelho de Pseudo-Mateus; O Evangelho da Natividade de Maria; a História de José, o Carpinteiro; o Evangelho segundo Tomé; o Evangelho da Infância; o Evangelho segundo Nicodemos; o Evangelho segundo Filipe; o Evangelho dos Egípcios.
Numerosos Atos dos Apóstolos também foram compostos. Entre os mais conhecidos está a coletânea chamada Atos Leucianos, porque foram colecionados por Léucio. Estas obras fragmentárias, em número de cinco, incluem Atos, os de Paulo e Tecla (segundo século), e os de Pedro (terceiro século). Epís­tolas, a de Barnabé (fim do pri­meiro século). Apocalypses, o de Pedro (segundo século), Os Atos de Pilatos.

Epístolas apócrifas não são tão numerosas, porque era mais difícil falsificá-las ao ponto de apresentarem alguma aparência de autenticidade. Entre as mais conhecidas está a Epistola dos Apóstolos, que tratava de tendências heréticas; a Epístola aos Laodi­censes (cf. Cl 4.16), seleções das cartas de Paulo (especialmente Filipenses); 3ª Corintios e a Correspondência entre Paulo e Sêneca.

Os apocalipses eram modelados de modo semelhante ao Livro do Apocalipse no NT. Os mais famosos entre eles são: o Apocalipse de Pedro (século II) e o Apocalipse de Paulo (século IV). Entre outras coisas, os dois têm visões do céu e do inferno, com cenas de bem-aventurança e descrições lúgubres do castigo.

Uma das mais relevantes descobertas de obras apócrifas do NT foi feita em 1946, em Nag Hammadi, cerca de 50 km. ao norte de Luxor, no Egito. Eram trinta e sete obras completas, e cinco obras fragmentárias, geralmente com uma tendência gnóstica, todas escritas em cóptico, traduzidas de originais gregos.

LIVROS PSEUDOEPÍGRAFOS

Nenhum artigo sobre os livros apó­crifos pode omitir estes inteira­mente, porque de ano para ano está sendo mais compreendida a sua importância. Chamam-se Pseu­doepigraficos, porque se apresen­tam como escritos pelos santos do Antigo Testamento. Eles são am­plamente apocalípticos; e repre­sentam esperanças e expectativas, que não produziram boa influência no primitivo Cristianismo. Entre eles podem mencionar-se o Livro de Enoch (etiópico), que é citado em Judas 14. Atribuem-lhe várias datas, pelos últimos dois séculos antes da era cristã. Os Segredos de Enoch (slavo), livro escrito por um judeu helenista, ortodoxo, na pri­meira metade do primeiro século A. D. O Livro dos Jubileus (dos is­raelitas), ou o Pequeno Gênesis, tratando de particularidades do Gênesis d’uma forma imaginaria e legendaria, escrito por um fariseu
entre os anos 135 e 105 A. C. Os Testamentos dos Doze Patriarcas:

É este livro um alto modelo de en­sino moral. Pensa-se que o original hebraico foi composto nos anos 109 a 107 A. C., e a tradução grega, em que a obra chegou até nós, foi feita antes de 50 A. D. Os Oráculos Si­bylinos, Livros III-V, descrições poéticas das condições passadas e futuras dos judeus; a parte mais antiga é colocada cerca do ano 140 A. C. sendo a porção mais moder­na do ano 80 da nossa era, pouco mais ou menos. Os Salmos de Sa­lomão entre 70 e 40 A. C. As Odes de Salomão, cerca do ano 100 da nossa era, são provavelmente es­critos cristãos. O Apocalypse Sy­naco de Baruch (2 Baruch), 60 a 100 A. D. O Apocalypse grego de Baruch (3 Baruch), do segundo século, A. D. A Assunção de Moy­sés 7 a 30 A. D. A Ascensão de Isaías, do primeiro ou do segundo século A. D.

TODA LISTA DE LIVROS CONHECIDOS:

Apócrifos do Antigo Testamento

Podemos subdividir em outras categorias:

Apocalipses:

    Apocalipse di Abramo
    Apocalipse de Adão
    Apocalipse de Baruc
    Apocalipse greca de Baruc
    Apocalipse de Daniele
    Apocalipse de Elia (copta)
    Apocalipse de Elias (hebraico)
    Apocalipse de Esdras ou 4 Esdras
    Apocalipse de Sedrach
    Apocalipse de Moisés
    Apocalipse de Sofonias

Testamentos

    Testamento de Abraão
    Testamento de Adão
    Testamento dos 12 patriarcas
    Testamento de Isaac
    Testamento de Jacó
    Testamento de Jó
    Testamento de Moisés ou Assunão de Moisés
    Testamento de Salomão

Outros textos apócrifos do Antigo Testamento:
    Ascenção de Isaías
    4 Baruc o Omissões de Jeremias
    Perguntas de Esdras
    1 Enoch ou livro de Enoch Etíope
    2 Enoch ou Enoch Eslavo
    3 Enoch ou Apocalipse hebraica de Enoch
    Livro dos Jubileus
    Livro de Iannes e Iambres
    Livro de José e Asseneth
    Livro di Noé
    5 Maccabeus
    Odes de Salomão
    Oráculos sibilinos
    Oração de José
    História de Achikar
    História dos Recabitas
    Vida de Adão e Eva
    Visão de Esdras
    Vidas dos profetas

Apócrifos presentes na LXX
    Esdras grego
    Odes
    Oração de Manassés
    Terceiro livro dos Macabeus
    Quarto livro dos Macabeus
    Salmo 151
    Salmos 152-155
    Salmos de Salomão

Textos considerados apócrifos pelos protestantes, mas presentes na bíblia católica

    Giudite
    Tobias
    1Macabeus
    2Macabeus
    Sabedoria
    Eclesiástico ou Sirácide
    Baruc
    Carta de Jeremia
    Oração de Azarias (Daniel)
    História de Susana (Daniel)
    Bel e o Dragão
    Versão grega de Ester

Apócrifos do Novo Testamento

Evangelhos apócrifos

Evangelhos da infância de Jesus
    Proto-Evangelho de Tiago ou Evangelho da Infância de Tiago ou Evangelho de Tiago
    Código Arundel 404
    Evangelho da infância de Tomás ou Evangelho do Pseudo-Tomás
    Evangelho dello pseudo-Matteo ou Evangelho dell’infanzia de Matteo
    Evangelho árabe da infância
    Evangelho armênio da infância
    Livro sobre o nascimento de Maria
    História de José o carpinteiro

Evangelhos Judeu-Cristãos
    Evangelho dos Ebionitas
    Evangelho dos Nazareus ou Evangelho dos Nazarenos
    Evangelho dos hebreus

Evangelhos gnósticos
    Apocrifo de João ou Livro de João Evangelista ou Revelação Segreta de João
    Diálogo do Salvador
    Livro segreto de Tiago ou Apócrifo de Tiago
    Livro de Tomás
    Pistis Sophia ou Livro do Salvador
    Evangelho de Apel
    Evangelho de Bardesane
    Evangelho de Basilide
    Evangelho copto dos Egípcios
    Evangelho grego dos Egípcios
    Evangelho de Eva
    Evangelho segundo Filipe
    Evangelho de Judas
    Evangelho de Maria ou Evangelho de Maria Madalena
    Evangelho de Matias ou Tradição de Matias
    Evangelho da Perfeição
    Evangelho dos 4 ramos celestes
    Evangelho do Salvador ou Evangelho de Berlim
    Sabedoria de Jesus Cristo ou Sofia de Jesus Cristo
    Evangelho de Tomás ou Evangelho de Dídimo Thomás ou Quinto Evangelho
    Evangelho da Verdade

Evangelhos da Paixão
    Evangelho de Gamaliel
    Evangelho de Nicodemos
    Evangelho de Pedro
    Declaração de José de Arimatéia

Outros evangelhos
    Interrogatio Johannis ou Ceia segreta ou Livro de João Evangelista
    Evangelho de Barnabás
    Evangelho de Bartolomeu ou Questões de Bartolomeu
    Evangelho de Tadeu

Fragmentos de evangelhos
    Papiro de Ossirinco 840
    Papiro de Ossirinco 1224
    Evangelho Egerton
    Papiro de Fayyum
    Papiro de Berlim

Evangelhos perdidos, mas citados por outras fontes
    Pregação de Pedro
    Evangelho de André
    Evangelho de Cerinto
    Evangelho dos Doze
    Evangelho de Mani
    Evangelho de Marcião
    Evangelho segreto de Marcos
    Evangelho dos Setenta

Atos apócrifos
    Atos de André
    Atos de André e Matias
    Capitolo 29 dos Atos dos Apóstolos
    Atos de Barnabé
    Atos de Bartolomeu ou Martírio de Bartolomeu
    Atos de Santippe e Polissena
    Atos de Felipe
    Atos de João
    Atos de Marcos
    Atos de Mateus
    Atos de Paulo
    Atos de Paulo e Tecla
    Atos de Pedro
    Atto de Pedro
    Atos de Pedro e André
    Atos de Pedro e dos Doze
    Atos de Pedro e Paulo
    Atos de Pilatos
    Atos de Simão e Judas
    Atos de Tadeu
    Atos de Timóteo
    Atos de Tito
    Atos de Tomás

Cartas apócrifas
    Carta dos Apóstolos
    Carta de Barnabé
    Lettere de Inácio
    Carta dos Coríntios a Paulo
    Carta ai Laodicesi
    Lettere de Paulo e Sêneca
    Terza Carta de Paulo aos Coríntios
    Carta de Pedro a Felipe
    Carta de Pedro a Tiago Maior
    Caras de Jesus Cristo e do rei Abgar de Edessa
    Carta de Publio Lentulo

Apocalipses apócrifos
    Primeira Apocalipse de Tiago
    Segunda Apocalipse de Tiago
    Apocalipse da Virgen (etíope)
    Apocalipse da Virgen (grego)
    Apocalipse de Pedro (grego)
    Apocalipse de Pedro (copto)
    Apocalipse de Paulo (grego)
    Apocalipse de Paulo (copto)
    Apocalipse de Estêvão
    Apocalipse de Tomás

Ciclo de Pilatos
    Sentença de Pilatos
    Anáfora de Pilatos
    Paradosis de Pilatos
    Cartas de Pilatos e Erodee
    Cartas de Pilatos e Tiberio
    Vingança do Salvador
    Morte de Pilatos
    Cura de Tibério

Outros apócrifos
    Descina ao inferno (de Jesus)
    Doutrina de Addai
    Duas vias ou Juízo de Pedro
    Doutrina de Paulo
   Doutrina de Pedro
    Martírio de André apóstolo
    Martírio de Mateus
    Risurreição de Jesus Cristo (de Bartolomeu)
    Testamento de Jesus
    Tradição de Matias
    Dormição da Beata Maria Virgem ou Trânsito de Maria de João o Teólogo
    Trânsito da Beata Maria Virgem de José de Arimatéia
    Vida de João Batista de Seapião de Alexandria

Literatura sub-apostólica (Documentos Históricos)

    Didachè
    Primeira Carta de Clemente
    Segonda Carta de Clemente
    Carta de Inácio aos Efésios
   Carta de Inácio aos Magnesios
    Carta de Ignazio ai Tralianos
   Carta de Inácio aos Romanos
   Carta de Inácio aos Filadelfenses
   Carta de Inácio aos Esmirnenses
   Carta de Inácio a Policarpo
    Primeira Carta de Policarpo aos Filipenses
    Segunda Primeira Carta de Policarpo aos Filipenses
    Martírio de são Policarpo
    Papia de Gerapoli (fragmentos)
    Carta de Barnabé
    Homilia do pseudo-Clemente
    Pastor de Hermas
    Carta a Diogneto

 

 

 

A Profetisa Débora, a mãe de Israel

A Profetisa Débora, a mãe de Israel

O quarto dos juízes que governou o povo judeu após a morte de Josué, não era um homem, mas uma mulher, uma das mais famosas de todos os tempos, a profetisa Débora. Antes dela foram Otniel, Eúde e Sangar, este último apenas por um curto período de tempo.

Após a morte de Ehud os judeus abandonaram os caminhos da Torá e adotaram muitos dos ídolos. Como consequência Deus os entregou nas mãos do rei de Canaã, Jabim, cuja residência real era a cidade de Hazor. Seu cruel general, Sísera, oprimiu os judeus durante vinte anos. Sísera possuía um exército bem treinado de cavalaria. Ele também tinha carros de ferro que eram os “tanques” daqueles dias. Os judeus sofreram terrivelmente sob o domínio cruel de Sísera, e em grande desespero clamaram a Deus.

 Foi então que Deus enviou a Profetisa Deborah. Ela era uma das sete profetisas mulheres, cujas profecias estão registradas na Bíblia. (Ex 15,20; Jz 4,4; 2Rs 22,14; Nee 6,14; Is 8,3; Lc 2,36;)

 Débora viveu nas montanhas de Efraim, entre Ramá e Betel. No meio do pecado e da idolatria, Débora permaneceu fiel a Deus e Sua Torá. Ela foi sábia e temente a Deus, e as pessoas se aglomeravam ao seu redor para pedir conselho e ajuda. Deborah julgava debaixo de uma palmeira, ao ar livre. Lá, onde todos pudessem ouvi-la, ela advertia o povo judeu e os exortava a deixar seus maus caminhos e voltar a Deus. Toda a nação judaica, respeitava esta grande profetisa.

 O história começa mostrando Israel sendo oprimido por Jabin rei de Hazor. Deborah é uma mulher profeta, alguém que fala com autoridade divina, e ela é a mulher de Lapidot. Eshet Lapidot que poderia ser traduzido como “esposa de Lapidot”, mas também significa “mulher de tochas.” Esta palavra, Lapidot, “tochas”, aparece normalmente onde esperaríamos o nome de um marido, mas é um nome  que soa estranho para um homem e, além disso, não tem o padrão usado na literatura bíblica  “filho de”.

 O leitor deve decidir se vai traduzir Lapidot como um nome ou um substantivo. Traduzi-lo como “mulher de Lapidot” tem a vantagem de enfatizar que um profeta pode ser casado e que uma mulher casada pode ter outro papel.

Por outro lado, traduzindo como “mulher de tochas” ou “mulher ardente” se encaixa na imagem de Deborah e tem muito a ver com a literatura bíblica, na qual, quase sempre os nomes tem um significado. Na realidade, “mulher tocha”, se caracteriza por  um jogo de palavras significativas, pois é Deborah, não seu marido, que é a tocha que acende Barak  (cujo nome significa “relâmpago ou aquele que emite raios de luz”) como chamas. Além disso, na mitologia mesopotâmica, a tocha e os relâmpagos (tsullat e Hanish) são os arautos do deus da tempestade. Da mesma forma, “Mulher tocha” e “Relâmpago”  são arautos nesta luta contra os cananeus.

  • Na Haggadah sobre este texto está escrito: Na escola de Elias foi ensinado: eu chamo o céu e a terra para testemunhar que seja um pagão ou um judeu, um homem ou uma mulher, um servo, ou uma serva, o Espírito Santo inunda qualquer um de acordo com as obras que ele ou ela realiza.E [Quais foram os feitos meritórios de Débora?] Diz-se que o marido de Débora era analfabeto [na Torá]. Então sua esposa disse a ele: “Venha, vou fazer pavios para você, levá-los para o Lugar Santo em Shiloh. Sua parte será, em seguida, estar com homens valorosos de Israel [que irão estudar à luz dos] pavios, e você merecerá a vida no mundo por vir. “Ela teve o cuidado de fazer os pavios grossos, de modo que a sua luz fosse ampla. Ele trouxe estes pavios ao Lugar Santo [em Shiloh]. O Santo, que examina os corações e as atitudes da humanidade, disse-lhe: Deborah, uma vez que você teve o cuidado de fazer a luz para o estudo da minha Torá, vou fazer com que a luz de sua profecia seja ampla na presença das 12 tribos de Israel.

Embaixo da palmeira Débora julgava Israel. Da mesma forma, os sábios judeus, explicam que Debora se sentava sob uma palmeira para mostrar ao mundo que o povo judeu era unido e voltava seus olhos para Deus, como as folhas da palmeira viram para cima juntas, em direção ao céu.

Os “juízes” eram líderes carismáticos de Israel nos tempo anteriores à monarquia. Esses líderes normalmente adquiriam autoridade política depois que salvavam Israel através de uma batalha.

Será que Deborah se torna uma juíza da mesma maneira, por liderar um grupo na batalha? Ou talvez ela adquiriu sua autoridade, oferecendo sábios conselhos que a levou a uma vitória, ou por previsão de uma questão importante que se tornou realidade. A história nunca nos diz.

No “Cântico”, Deborah descreve um colapso total da ordem em Israel. “Ficaram desertas as aldeias em Israel, repousaram, até que, Débora, se levantou, se levantou como mãe em Israel. (Juízes 5,7)”. De alguma forma, Deborah impôs a ordem em Israel. Como isso aconteceu, nem o poema nem os registros da história dizem. Seu silêncio sobre tais assuntos importantes é um lembrete de que nem a história nem a canção foram enquadradas como um registro da vida de Débora.

E Debora “mandou chamar Barac” (Jz 4,6). O que levou Deborah a chamar Barak? Debora chama Barak em seu papel profeta, uma enviada de Deus. Além disso, se dá a entender que Debora está seguindo uma chamada anterior a Barak. Ela diz: “O Deus de Israel não te deu uma ordem?” Deus tinha falado com Barak, e o chamado de Deborah é uma segunda convocação. Barak está relutante em ir, como Moisés antes dele, como Gideão e Samuel mais tarde na história de Israel, e outros chamados por Deus para serem enviados. Ele procura uma certeza de que Deus está realmente com ele e insiste em que Débora deve ir com ele para a área de batalha onde os guerreiros estão reunidos. Ele diz: “Se fores comigo, irei; porém, se não fores comigo, não irei.”  (4,8) E Debora responde: “Certamente, irei contigo, porém não será tua a honra da investida que empreendes; pois às mãos de uma mulher o Senhor entregará a Sísera.

 

BARAC É “FRACO” POR ISSO PRECISA DE DEBORA?

Os leitores ficam muitas vezes incomodados pela relutância de Barak em não querer ir sem Deborah, declarando que sua hesitação torna “menos viril” ou macula a sua glória. Mas Barak tem boas razões para estar inseguro: Jabin, afinal, tem novecentos carros! Além disso, os profetas desempenhar vários papéis em batalhas: eles reúnem e inspiram as tropas, e também declaram o tempo correto, auspicioso para começar. Os profetas são uma presença tão importante na batalha que Elias e Eliseu são chamados de “carruagem e cabalaria de Israel.”


PROFETAS FEMININAS, MULHERES EM GUERRA

Muitos leitores desta história ficam particularmente preocupados com a presença das mulheres na guerra, pensam que elas estão lá de alguma forma fora de lugar. Mas a maioria dos profetas assírios eram mulheres, e os relatórios, tanto do antigo e próximo Oriente Médio mostram um padrão consistente da presença de mulheres para inspirar as tropas e insultar o inimigo. Não há nenhuma razão para pensar que os leitores bíblicos achem estranho o pedido de Barak a Deborah, como uma mulher profeta


A ARMA DE DÉBORA, A PALAVRA, MOSTRA DEUS COMO VERDADEIRO SALVADOR DE ISRAEL

No Monte Tabor, Deborah, a profetisa, anuncia a vitória dizendo: “Não saiu o Senhor diante de ti”? (4,14). Então, Barak desceu o monte. Ela mesma não desce para a batalha. Como Moisés, Deborah não é um comandante de batalha. Seu papel é inspirar, prever e comemorar com um cântico. Sua arma é a palavra, e seu nome é um anagrama de “ela falou” (dibberah). A batalha em si não é essencial. É importante apenas para lembrar que Deus foi à frente:. Debora anunciou a vitória de Deus, Barak facilitou, mas foi Deus quem salvou Israel. O Cântico de Débora dá uma ideia de como Deus derrotou Canaã: Deus trouxe uma enchente que fez um pântano de deslizamento de lama em que os carros eram inúteis.


MULHER E MÃE

Tanto a história como o cântico enfatizam o fato de que Deborah é uma mulher. A história diz-nos que ela era uma mulher profetisa, acrescentando a palavra “mulher”, ishah, também o substantivo feminino “profetisa”, nebi’ah, já transmite essa informação.
E a canção sublinha que Deborah foi uma “mãe em Israel.” A feminilidade não é nem oculta nem incidental: é parte integrante da história. A maternidade da “mãe em Israel” vai além da biologia. Ele descreve seu papel como conselheira durante os dias que antecederam a guerra, e indica seu papel na preservação da herança de Israel, no seu caso, aconselhando na batalha.

O sentido mais amplo de Deborah como mãe, é revelado em seu nome, que não é apenas um anagrama de “ela falou”, mas é, também, um substantivo que significa “abelha”. Como a abelha rainha, ela levanta o enxame para a batalha, enviando os zangões para proteger a colmeia e conquistar novos territórios.

 

Ivete Holthmam

A Biografia de Timóteo

A Biografia de Timóteo

Timóteo é um dos personagens mais conhecidos do Novo Testamento. Duas epístolas neotestamentárias são endereçadas a ele. Também existem várias referências diretas e indiretas sobre ele em outros livros da Bíblia, como Atos, 1 Coríntios e Tessalonicenses. Muitas pregações são feitas sobre a pessoa de Timóteo, geralmente enfatizando o seu exemplo como jovem obreiro que a Bíblia descreve.

Mas afinal, quem foi Timóteo?

Timóteo foi um jovem líder da Igreja Primitiva. Muito provavelmente ele nasceu em Listra, uma província romana da Galácia. Juntamente com Derbe, essa província é designada em Atos 14:6 como “cidades da Licaônica”. Outra possibilidade para a cidade natal de Timóteo é justamente Derbe, porém Listra é mais amplamente aceita. O pai de Timóteo era grego, porém sua mãe, Eunice, e sua avó, Loide, eram judias (At 16:1; 2 Tm 1:5). Provavelmente elas se converteram durante a primeira passagem do apóstolo Paulo por Listra e Derbe (At 14:6-22).

O ministério de Timóteo

Na segunda viagem missionária de Paulo, quando ele voltou à região da Licaônica, o apóstolo ficou impressionado com o desenvolvimento de Timóteo e resolveu leva-lo consigo. Existe a possibilidade de que ele tenha sido levado por Paulo para substituir João Marcos. Seja como for, ali começava uma grande parceria que resultou em grandes frutos para a Igreja Primitiva. O legado da parceria desses dois homens de Deus serve de exemplo para nós até os dias de hoje. Um fato curioso é que quando Paulo escolheu Timóteo para acompanha-lo, Timóteo precisou ser circuncidado. Isso aconteceu por causa dos judeus que estavam naquele lugar. Além disso, Paulo considerou que ele levaria o Evangelho a muitas regiões predominantemente habitadas por judeus. Assim, o fato de Timóteo ser circuncidado evitaria algum tipo de discriminação. Mas nós sabemos que Paulo pessoalmente era totalmente contra a obrigatoriedade da circuncisão aos gentios que eram admitidos como membros da Igreja de Cristo. Provavelmente a explicação do porquê Timóteo ainda não havia sido circuncidado até então, era o fato de seu pai ser grego. A Bíblia não dá indícios de que seu pai tenha tido alguma influência em sua educação religiosa, nem ao menos informa que este ainda era vivo naqueles dias. A Bíblia também nos mostra que na separação de Timóteo para o ministério, Paulo e os anciãos locais oraram por ele impondo-lhe as mãos. Então ele recebeu um dom espiritual que o capacitou para o seu ministério (1 Tm 4:14; 2 Tm 1:6).

Timóteo foi um exemplo de membro da Igreja

Timóteo foi muito bem instruído espiritualmente por sua mãe e por sua avó. No livro de Atos dos Apóstolos podemos perceber como ele era querido entre os membros da igreja que foi implantada ali. Tanto era boa a sua conduta, que os irmãos que estavam em Listra e em Icônio davam bom testemunho dele (At 16:1,2).

Timóteo foi um exemplo de jovem cristão

Timóteo era um exemplo não apenas dentro da comunidade cristã de que era membro, mas diante da sociedade a qual fazia parte. Seu exemplo era tão positivo que sua reputação chegou até Icônio. Essa conduta não foi construída de uma hora para outra, mas foi resultado de uma aprendizagem que começou quando ele era ainda muito novo. Paulo fala sobre isso quando escreve:

Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus. (2 Timóteo 3:14,15)

Timóteo foi um jovem escolhido para a obra de Deus

É preciso deixar bem claro que apesar de Timóteo ter sido muito próximo de Paulo, não foi Paulo quem o escolheu. Quem escolheu aquele jovem para desempenhar um importante ministério foi o próprio Deus. Paulo sabia disso, e quando o aconselhava acerca do ministério, fazia-o lembrar de que existiam profecias anteriores acerca do papel importante que ele desempenharia na Igreja (1 Tm 1:18; 4:14).

Timóteo foi um exemplo de liderado

Embora Timóteo até tivesse o preparo suficiente para desempenhar sua missão, a Bíblia nos mostra sua humildade e capacidade de ser liderado. Ele aparece na narrativa bíblica assumindo o papel de discípulo em relação a Paulo. Não podemos encontrar na Bíblia referências sobre um Timóteo desobediente, fazendo o que lhe dava na cabeça, participando de contendas ou reclamando com Paulo. Timóteo foi a prova de que um grande líder precisa ser um grande liderado. Ele sempre estava atendo, cumprindo o que lhe fosse ordenado.

Timóteo foi um exemplo de obreiro e líder

A forma com que Timóteo respeitava a liderança de Paulo e se submetia a ele, com certeza o preparou para ser um exemplo de obreiro e um grande evangelista que foi um dos líderes da Igreja Primitiva (2 Tm 4:5). Além de porta-voz de Paulo em diversas situações, ele participou com o apóstolo de várias viagens missionárias. O capítulo 16 do livro de Atos dos Apóstolos mostra Timóteo juntamente com Paulo, Silvano e mais tarde Lucas, evangelizando varias províncias até chegar à Europa. Embora na Bíblia não seja citada sua presença em Filipos e Tessalônica, é bem provável que ele estivesse junto ali. Já Atos 17 descreve Timóteo e Silas sendo deixados por Paulo em Bereia para continuarem seu trabalho durante um período. Mas logo depois Timóteo foi encontrar Paulo em Atenas, e em seguida, foi enviado a Tessalônica para ajudar os irmãos ali. Por fim, mais tarde ele partiu para Corinto levando as boas noticias a Paulo (1 Ts 3:6,7).

Timóteo também estava presente em Éfeso com Paulo durante a sua terceira viagem missionária. Não existem referências sobre o período que antecede esse evento. No entanto, provavelmente Timóteo partiu com Paulo de Corinto até Éfeso e depois até Cesaréia, na viajem para Jerusalém (At 18:18-23). Outra missão muito importante que Timóteo desempenhou foi a de levar a primeira epístola de Paulo à Igreja de Corinto. Após essa missão, ele retornou a Éfeso novamente. Logo em seguida, ele foi enviado à Macedônia para realizar os preparativos da chegada de Paulo posteriormente (At 19:22). Paulo também revelou a intenção de enviá-lo a Filipos, devido à preocupação que ele sentia em relação aos crentes daquela cidade. Após a sua primeira prisão, Paulo deixou Timóteo em Éfeso para suprir as necessidades da igreja local. Foi durante o período em que ele ministrou na igreja de Éfeso que Paulo escreveu-lhe a primeira carta.

Paulo e Timóteo

Além de todas as viagens missionárias que Timóteo fez ao lado de Paulo, ele estava junto do apóstolo na Macedônia quando a epístola de 2 Coríntios foi escrita. Timóteo também esteve em Corinto quando Paulo escreveu a Epístola aos Romanos. Mais tarde, quando as epístolas aos Colossenses, Filipenses e Filemom foram escritas, ele também esteve presente. É nítido que Paulo sentia um enorme carinho como de pai para filho com Timóteo. Durante sua última prisão em Roma, Paulo pediu que ele fosse visitá-lo antes do inverno (2 Tm 4:6-9). Não é possível afirmar com certeza onde Timóteo estava naquele momento. Também não sabemos se ele conseguiu chegar antes de Paulo ter sido martirizado.

Curiosidades sobre Timóteo

  • Timóteo era muito jovem quando começou a exercer seu ministério (1 Tm 4:12).
  • Timóteo era provavelmente tímido e tinha dificuldades de se expressar (1 Co 16:10,11; cf. 2 Tm 1:6-10).
  • Embora Timóteo fosse jovem, parece que ele tinha a saúde fraca e frequentemente estava doente (1 Tm 4:12; 5:23).
  • Muitos consideram que Timóteo foi o primeiro bispo de Éfeso. Mas essa tradição é contestada devido ao fato de Timóteo ter ficado ali temporariamente. Além disso, logo depois o apóstolo João mudou-se para aquela cidade. Com isso, dificilmente Timóteo poderia ter sido o líder responsável pela igreja de Éfeso com o apóstolo João por lá.
  • Timóteo foi um dos líderes da Igreja Primitiva que mais refutou as falsas doutrinas e heresias, principalmente em Éfeso.
  • Acredita-se que Timóteo também tenha sofrido martírio.

As cartas que o apóstolo Paulo endereçou a Timóteo e a Tito, possuem exortações e aconselhamentos práticos para a liderança da congregação local. Por isso essas epístolas são chamadas de Cartas Pastorais.

Angelologia Bíblica

Angelologia Bíblica

Ao nosso redor há um mundo espiritual poderoso, populoso e de recursos superiores ao nosso mundo visível. Bons e Maus espíritos passam em nosso meio, de um lugar para o outro, com grande rapidez e movimentos imperceptíveis. Alguns desses espíritos se interessam pelo nosso bem-estar, outros, porém, estão empenhados em fazer-nos o mal. Muitas pessoas questionam se existem realmente tais espíritos ou seres, quem são, onde se encontram e o que fazem.
A palavra de Deus é a única fonte de informação que merece confiança, e que possui respostas para estas perguntas. Ela deixa claro que há outra classe de seres superiores ao homem. Esses seres habitam nos céus e formam os exércitos celestiais, a inumerável companhia dos servos invisíveis de Deus. Esses são os anjos de Deus, os quais estão sujeitos ao governo divino, e o importante papel que têm desempenhado na história da humanidade torna-os merecedores de referência especial. Existem também aqueles, pertencentes a mesma classe de seres, que anteriormente foram servos de Deus, mas que agora se encontram em atitude de rebelião contra seu governo.
A doutrina dos anjos segue logicamente a doutrina de Deus, pois os anjos são fundamentalmente os ministros da providência de Deus. Essa doutrina permite-nos conhecer a origem, existência, natureza, queda, classificação, obra e destino dos anjos.

2. A origem dos anjos
A época de sua criação não é indicada com precisão em parte alguma, mas é provável que tenha se dado juntamente com a criação dos céus (Gn 1:1 ). Pode ser que tenham sido criados por Deus imediatamente após a criação dos céus e antes da criação da terra, pois de acordo com Jó 38:4-7, rejubilavam todos os filhos de Deus quando Ele lançava os fundamentos da terra. Que os anjos não existem desde a eternidade é mostrado pelos versículos que falam de sua criação ( Ne 9:6 , Sl 148:2,5; Cl 1:16 ). Embora não seja citado número definido na Bíblia, acredita-se que a quantidade de anjos é muito grande ( Dn 7:10; Mt 26:53; Hb 12:22 ).

3. A natureza dos anjos
3.1- São seres espirituais e incorpóreos.
Os anjos são descritos espíritos, porque diferentes dos homens, eles não estão limitados às condições naturais e físicas. Aparecem e desaparecem, e movimenta-se com uma rapidez imperceptível sem usar meios naturais. Apesar de serem espíritos, têm o poder de assumir a forma de corpos humanos a fim de tornar visível sua presença aos sentidos do homem (Gn 19:1-3).
Que os anjos são incorpóreos está claro em Ef 6.12, onde Paulo diz que “a nossa luta não é contra a carne nem sangue, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes”. Outras referências: Sl 104:4; Hb 1:7,14; At 19:12; Lc 7:21; 8:2; 11:26; Mt 8:16; 12.45. Não têm carne nem ossos e são invisíveis ( Cl 1:16 ).

3.2- São um exército e não uma raça.
As Escrituras ensinam que o casamento não é da ordem ou do plano de Deus para os anjos (Mt 22:30; Lc 20:34 -36 ), portanto não se caracteriza uma raça. No Velho Testamento por cinco vezes os anjos são chamados de “filhos de Deus” ( Gn 6:2,4; Jó 1:6; 2:1; 38:7 ) mas nunca lemos a respeito dos “filhos dos anjos”. Os anjos sempre são descritos como varões, porém na realidade não tem sexo, não propagam sua espécie ( Lc 20:34-35 ).
Várias passagens das Escrituras indicam que há um número muito grande de anjos (Dn 7:10; Mt 26:53; Sl 68:17; Lc 2:13; Hb 12:22), e são repetidamente mencionados como exércitos do céus ou de Deus. No Getsêmani, Jesus disse a um discípulo que queria defendê-los dos que vieram prendê-lo: “Acaso pensas que não posso rogar ao meu pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos”? ( Mt 26:53 ). Portanto, seu criador e mestre é descrito como “Senhor dos Exércitos”.
É evidente que eles são criaturas e portanto limitados e finitos. Apesar de terem mais livre relação com o espaço e o tempo do que o homem, não podem estar em dois ou mais lugares simultaneamente.

3.3- São seres racionais morais e imortais.
Aos anjos são atribuídas características pessoais; são inteligentes dotados de vontade e atividade. O fato de que são seres inteligentes parece inferir-se imediatamente do fato de que são espíritos (2 Sm 14:20; Mt 24:36 , Ef 3:10; 1 Pe 1:12; 2 Pe 2:11). Embora não sejam oniscientes, são superiores ao homens em conhecimento (Mt 24:36) e por ter natureza moral estão sob obrigação moral; são recompensados pela obediência e punidos pela desobediência.
A Bíblia fala dos anjos que permanecerem leais como “santos anjos” ( Mt 25:31; Mc 8:38; Lc 9:26; At 10:22; Ap 14:10) e retrata os que caíram como mentirosos e pecadores (Jo 8:44; 1 Jo 3:8-10).

A imortalidade dos anjos está ligada ao sentido de que os anjos bons não estão sujeitos a morte (Lc 20:35-36), além de serem dotados de poder formando o exército de Deus, uma hoste de heróis poderosos, sempre prontos para fazer o que o Senhor mandar ( Sl 103:20; Cl 1:16; Ef. 1:21; 3:10; Hb 1:14) enquanto que os anjos maus formam o exército de Satanás empenhados em destruir a obra do Senhor (Lc 11:21; 2 Ts 2:9; 1 Pe 5:8 ).
Ilustrações do poder de um anjo são encontradas na libertação dos apóstolos da prisão ( At 5:19; 12:7) e no rolar da pedra de mais de 4 toneladas que fechou o túmulo de Cristo (Mt 28.2 )

4. A classificação dos anjos

4.1- Anjos bons e anjos maus
Há pouca informação sobre o estado original dos anjos. Porém no dia de sua obra criadora Deus viu tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Pressupõe-se que todos os anjos tiveram um boa condição original (Jo 8:44; 2 Pe 2:4; Jd 6 ). Os anjos bons são chamados “anjos eleitos” (1 Tm 5:21) e evidentemente receberam graça suficiente para habilitá-los a manter sua posição de perseverança, pela qual foram confirmados em sua condição e agora são incapazes de pecar . São chamados também de “santos anjos ou anjos de luz” (2Co 11:14). Sempre contemplam a face Deus (Lc 9:26), e tem vida imortal ( Lc 20:36 ). Sua atividade mais elevada é a adoração a Deus ( Ne 9:6; Fp 2:9-11; Hb 1:6; Jó 38:7; Is 6:3; Sl 103:20; 148:2 Ap 5:11).

4.2- Quatro tipos de anjos bons:

1. Anjos:
Tanto no grego quanto no hebraico a palavra “anjo” significa “mensageiro”. São exércitos como seres alados (Dn 9:21; Ap 14:6) para nos favorecer. Desde a entrada do pecado no mundo, eles são enviados para dar assistência aos herdeiros da salvação (Hb 1:14). Eles se regozijam com a conversão de um pecador (Lc 15:10), exercem vigilância protetora sobre os crentes ( Sl 34:7; 91:11 ), protegem os pequeninos (Mt 18:10), estão presentes na igreja (1 Tm 5:21) recebem aprendizagem das multiformes riquezas da graça de Deus ( Ef 3:10; 1 Pe 1:12) e encaminham os crentes ao seio de Abraão (Lc 16:22,23). A idéia de que alguns deles servem de anjos da guarda de crentes individuais não tem apoio nas Escrituras. A declaração de Mt 18:10 é geral demais, embora pareça indicar que há um grupo de anjos particularmente encarregado de cuidar das criancinhas. At 12:15 tampouco o prova, pois esta passagem mostra apenas que, naquele período primitivo havia alguns, mesmo entre discípulos, que acreditavam em anjos guardiães.
Embora os anjos não constituam um organismo, evidentemente são organizados de algum modo. Isto ocorre do fato de que ao lado do nome geral “anjo”, a Bíblia emprega certos nomes específicos para indicar classe de anjos. O termo grego “angelos” (anjos = mensageiros ) também e freqüentemente aplicado a homens (Mt 11:10; Mc 1:2; Lc 7:24; 9:52; Gl 4:14). Não há nas Escrituras um nome geral, especificamente distintivo, para todos os seres espirituais. Eles são chamados filhos de Deus, (Jó 1:6; 2:1) espíritos (Hb 1:14), santos (Sl 89:5,7; Zc 14:5; Dn 8:13 ), vigilantes (Dn 4:13,17). Contudo, há nomes específicos que indicam diferentes classes de anjos.

2. Querubins:
São responsáveis pela guarda da entrada do paraíso (Gn 3:24), observam o propiciatório (Ex 25:18,20; Sl 80:1; 99:1; Is 37:16; Hb 9:5) e constituem a carruagem de que Deus se serve para descer à terra ( 2Sm 22:11; Sl 18:10). Como demonstração do seu poder de majestade, em Ez 1º e Ap 4º são representados simbolicamente como seres vivos em várias formas. Mais do que outras criaturas, eles foram destinados a revelar o poder, a majestade e a glória de Deus, e a defender a santidade de Deus no jardim do Éden, no tabernáculo, no templo e na descida de Deus à terra.

3. Serafins:
Mencionados somente em Is 6:2,6, constituem uma classe de anjos muito próxima dos querubins. São representados simbolicamente em forma humana com seis asas cobrindo o rosto, os pés e duas prontas para execução das ordens do Senhor. Permanecem servidores em torno do trono do Deus poderoso, cantam louvores a Ele e são considerados os nobres entre os anjos.

4. Arcanjo:
O termo arcanjo só ocorre duas vezes nas escrituras (1 Ts 4:16; Jd 9), mas há outras referências para ao menos um arcanjo, Miguel. Ele é o único a ser chamado de arcanjo e aparece comandando seus próprios anjos (Ap 12.7) e como príncipe do povo de Israel (Dn 10:13,21; 12.1). A maneira pela qual Gabriel é mencionado também indica que ele é de uma classe muito elevada. Ele está diante da presença de Deus ( Lc 1:19) e a ele são confiadas as mensagens de mais elevada importância com relações ao reino de Deus ( Dn 8:16; 9:21).

Obs.: Principados, potestades, tronos e domínios: A Bíblia menciona certas classes de anjos que ocupam lugares de autoridades no mundo angélico, como principados e potestades (Ef 3:10; Cl 2:10), tronos (Cl 1:16), domínios (Ef 1:21; Cl 1:16 ) e poderes ( Ef 1:21 , 1 Pe 3:22). Estes nomes não indicam espécies de anjos, mas diferenças de classe ou de dignidade entre eles. Embora em Ef 1:21 a referência parece incluir tanto anjos bons quanto os maus, nas outras passagens essa terminologia se refere definitivamente apenas aos anjos maus (Rm 8:38; Ef 6:12; Cl 2:15).

4.3- Anjos Maus
Os anjos foram criados perfeitos e sem pecado, e como o homem dotado de livre escolha. Sob a direção de Satanás, muitos pecaram e foram lançados fora do céu (2 Pe 2:4; Jd 6). O pecado, no qual eles e seu chefe caíram foi o orgulho. Alguns tem pensado que a ocasião de rebelião dos anjos foi a revelação da futura encarnação do Filho de Deus e a obrigação deles o adorarem.
Segundo as Escrituras, os anjos maus passam o tempo no inferno (2 Pe 2:4 ) e no mundo, especialmente nos ares que nos rodeiam. (Jo 12:31; 14:30; 2 Co 4:4; Ap 12:4,7-9). Enganando os homens por meio do pecado, exercem grande poder sobre eles (2 Co 4:3,4; Ef 2:2; 6:11,12); este poder está aniquilado para aqueles que são fieis a Cristo, pela redenção que ele consumou (Ap 5:9; 7:13,14).
Os anjos não são contemplados no plano da redenção (1 Pe 1:12), mas no inferno foi preparado o eterno castigo dos anjos maus (Mt 25:41).
Os anjos maus são empregados na execução dos propósitos de Satanás, que são opostos aos propósitos de Deus, e estão envolvidos nos obstáculos e danos contra a vida espiritual e o bem estar do povo de Deus.

5. A queda dos anjos

5.1- O fato da sua queda
Tudo nos leva a crer que os anjos foram criados em estado de perfeição. No capitulo 1º de Gênesis, lemos sete vezes que o que Deus havia feito era bom. No ultimo versículo deste capitulo lemos “Viu Deus tudo o quanto fizera, e eis que era muito bom”. Isso certamente inclui a perfeição dos anjos em santidade quando originalmente criados.
Algumas pessoas acham que Ez 28:15 se refere a Satanás. Se for assim, ele é definitivamente mostrado como tendo sido criado perfeito. Mas diversas passagens mostram alguns dos anjos como maus (Sl 78:49; Mt 25:41; Ap 9:11; Ap 12:7-9). Isto se deve ao fato de terem deixado seu próprio principado e habitação apropriada (Jd 6) e pecado (2 Pe 2:4). Não há duvida que Satanás tenha sido o chefe da apostasia. Is 14:12 e Ez 28:15-17 parece lamentar a sua queda.

5.2- A época de sua queda
Nas Escrituras não há referência de quando ocorreu a queda dos anjos, mas deixa claro que se deu antes da queda do homem, já que Satanás entrou no jardim na forma de serpente e induziu Eva a pecar (Gn 3).

5.3- A causa de sua queda.
De acordo com as Escrituras o universo e a criatura eram originalmente perfeitos. A criatura tinha originalmente a capacidade de pecar ou não. Ela foi colocada na posição de poder fazer qualquer uma das duas coisas sem ser obrigada a optar por uma delas. Em outras palavras, sua vontade era autônoma.
Portanto, conclui-se que a queda dos anjos se deu devido a sua revolta deliberada e autodeterminada contra Deus. Grande prosperidade e beleza parecem ser apontadas como possíveis causas. Em Ez 28:11-19, o rei de Tiro parece simbolizar Satanás e diz-se que ele caiu devido a essas coisas.
Ambição desmedida e o desejo de ser mais que Deus parecem ser outra causa. O rei da Babilônia é acusado de ter essa ambição, ele também parece simbolizar Satanás (Is 14.13-14).
Em qualquer um dos casos o egoísmo, descontentamento com aquilo que tinha e o desejo de ter tudo o que os outros tinham, foi a causa da queda de Satanás e de outros anjos que o seguiram.

5.4- O resultado de sua queda
1.Todos eles perderam a sua santidade original e se tornaram corruptos em natureza e conduta (Mt 10:1; Ef 6: 11-12; Ap 12:9); 2.Alguns deles foram lançados no inferno e estão acorrentados até o dia do julgamento (2 Pe 2:4); 3.Alguns deles permanecem em liberdade e trabalham em definida oposição à obra dos anjos bons (Ap 12:7-9; Dn 10:12,13,20,21; Jd 9); 4.Pode também ter havido um efeito sobre a criação original. A terra foi amaldiçoada ao pecado de Adão (Gn 3:17-19) e a criação está gemendo por causa da queda (Rm 8:19-22). Não é improvável, portanto, que o pecado dos anjos tenha tido algo a ver com a ruína da criação original no capítulo 1º de Gênesis; 5.Eles serão, no futuro, atirados para a terra (Ap 12:8-9), e após seu julgamento (1 Co 6:3), no lago de fogo e enxofre (Mt 25:41; 2 Pe 2:4; Jd 6).

6. Os demônios
As Escrituras não descrevem a origem dos demônios. Essa questão parece ser parte do mistério que rodeia a origem do mal. Porém, as Escrituras dão claro testemunho da sua existência real e de sua posição (Mt 12:26-28). Nos Evangelhos aparecem os espíritos maus desprovidos de corpos, que entram nas pessoas, das quais se diz que têm demônios. Os efeitos desta possessão se evidenciam por loucura, epilepsia e outras enfermidades, associadas principalmente com o sistema mental e nervoso (Mt 9:33; 12:22; Mc 5:4,5). O indivíduo sob a influência de um demônio não é senhor de si mesmo; o espírito fala através de seus lábios ou emudece à sua vontade; leva-o aonde quer e geralmente o usa como instrumento, revestindo-o às vezes de uma força sobrenatural.
Quando examinam as Escrituras, algumas pessoas ficam em dúvida se os demônios devem ser classificados juntamente com os anjos ou não; mas não há dúvida de que na Bíblia, há ensino positivo concernente a cada um dos dois grupos.
Ainda que alguns falem em “diabos”, como se houvesse muitos de sua espécie, tal expressão é incorreta. Há muitos “demônios”, mas existe um único “diabo”. Diabo é a transliteração do vocábulo grego “diabolos”, nome que significa “acusador” e é aplicado nas Escrituras exclusivamente a Satanás. “Demônio” é a transliteração de “daimon” ou “daimonion”.

6.1- A natureza dos demônios
1.São seres inteligentes (Mt 8:29,31; 1 Tm 4:1-3; 1 Jo 4:1 e Tg 2:19), possuem características de ações pessoais o que demonstra que possuem personalidade (Mc 1:24; Mc 5:6,7; Mc 8:16; Lc 8:18-31); 2.São seres espirituais (Lc 9:38,39,42; Hb 1:13,14; Hb 2:16; Mt 8:16; Lc 10:17,20); 3.São reputados idênticos aos espíritos imundos, no Novo Testamento; 4.São seres numerosos (Mc 5:9) de tal modo que tornam Satanás praticamente ubíquo por meio desses seus representantes; 5.São seres vis e perversos – baixos em conduta (Lc 9:39; Mc 1:27; 1 Tm 4:1; Mt 4:3); 6.São servis e obsequiosos (Mt 12:24-27). São seres de baixa ordem moral, degenerados em sua condição, ignóbeis em suas ações, e sujeitos a Satanás.

6.2- As atividades dos demônios
1.Apossam-se dos corpos dos seres humanos e dos irracionais (Mc 5:8, 11-13); 2.Afligem aos homens mental e fisicamente (Mt 12:22; Mc 5:4,5); 3.Produzem impureza moral (Mc 5:2; Ef 2:2);

7. Satanás

7.1- Sua origem
Alguns afirmam que Satanás não existe, mas observando-se o mal que existe no mundo, é lógico que se pergunte: “Quem continua a fazer a obra de Satanás durante a sua ausência, se é que ele não existe?”

Satanás aparece nas Escrituras como reconhecido chefe dos anjos decaídos. Ele era originalmente um dos poderosos príncipes do mundo angélico, e veio a ser o líder dos que se revoltaram contra Deus e caíram. De acordo com as Escrituras, Satanás era originalmente Lúcifer (“o que leva a luz”), o mais glorioso dos anjos. Mas ele orgulhosamente aspirou a ser “como o Altíssimo” e caiu “na condenação (Ez 28:12,19; Is 14: 12-15). O nome “Satanás” revela-o como “o adversário”, não do homem em primeiro lugar, mas de Deus. Ele investe contra Adão como a coroa da produção de Deus, forja a destruição, razão pela qual é chamado Apolion (destruidor), Ap 9:11, e ataca Jesus, quando Este empreende a obra de restauração. Depois da entrada do pecado no mundo ele se tornou “diabolos” (acusador), acusando continuamente o povo de Deus, Ap 12:10.
Ele é apresentado nas Escrituras como o originador do pecado (Gn 3:1,4; Jo 8:44; 2 Co 11:3; 1 Jo 3:8; Ap 12:9; 20:2,10) e aparece como reconhecido chefe dos que caíram (Mt 25:41; 9:34; Ef 2:2). Ele continua sendo o líder das hostes angélicas que arrastou consigo em sua queda, e as emprega numa desesperada resistência a Cristo ao seu reino. É também chamado “príncipe deste mundo” (Jo 12:31; 14:30; 16:11) e até mesmo “deus deste século” (2 Co 4:4). Não significa que ele detém o controle do mundo, pois Deus é quem o detém, e Ele deu toda autoridade a Cristo, mas o sentido é que Satanás tem sob controle este mundo mau, o mundo naquilo em que está separado de Deus (Ef 2:2).
Ele é mais que humano, mas não é divino; tem poder, mas não é onipotente; exerce influência em grande escala, mas restrita (Mt 12:29; Ap 20:2), e está destinado a ser lançado no abismo (Ap 20:10).

7.2- Seu caráter:
Presunçoso (Mt 4:4,5); Orgulhoso (1 Tm 3:6; Ez 28:17); Poderoso (Ef 2:2); Maligno (Jó 2:4); Astuto (Gn 3:1; 2 Co 11:3); Enganador (Ef 6:11); Feroz e cruel (1 Pe 5:8).

7.3- Suas atividades:

1. A natureza das atividades:
Perturbar a obra de Deus (1 Ts 2:18); Opor-se ao Evangelho (Mt 13:19; 2 Co 4:4); Dominar, cegar, enganar e laçar os ímpios (Lc 22:3; 2 Co 4:4; Ap 20:7,8; 1 Tm 3:7); Afligir e tentar os santos de Deus (1 Ts 3:5).

2. O motivo de suas atividades:
Ele odeia até a natureza humana com a qual se revestiu o Filho de Deus. Intenta destruir a igreja porque ele sabe que uma vez perdendo o sal da terra o seu sabor, o homem torna-se vítima nas suas mãos inescrupulosas.

3. Suas atividades são restritas:
Ao mesmo tempo que reconhecemos que Satanás é forte, devemos ter cuidado de não exagerar o seu poder. Para aqueles que crêem em Cristo, ele já é um inimigo derrotado (Jo 12:31), e é forte somente para aqueles que cedem à tentação. Apesar de rugir furiosamente ele é covarde (Tg 4:7). Não pode tentar (Mt 4:1), afligir (1 Ts 3:5), matar (Jó 2:6), nem tocar no crente sem a permissão de Deus.

7.4- Sua atuação
Não limita sua operações aos ímpios e depravados. Muitas vezes age nos círculos mais elevados como “um anjo de luz” (2 Co 11:14). Deveras, até assiste às reuniões religiosas, o que é indicado pela sua presença no ajuntamento dos anjos (Jó 1:6), e pelo uso dos termos “doutrina de demônios” (1 Tm 4:1) e “a sinagoga de Satanás” (Ap 2:9).
Freqüentemente seus agentes se fazem passar como “ministros de justiça” (2 Co 11:15).

7.5- Sua derrota:
Deus decretou sua derrota (Gn 3:14,15). No princípio foi expulso do céu; durante a grande tribulação será lançado da esfera celeste à terra (Ap 12:7-9); durante o milênio será aprisionado no abismo (Ap 20:1-3), e depois de mil anos será lançado no lago de fogo (Ap 20:10). Dessa maneira a Palavra de Deus nos assegura a derrota final do mal.

Bibliografia:
Teologia Sistemática – 3ª edição – 1990
Louis Berkhof
Editora Luz para o Mundo
Teologia Elementar – 8ª edição – 1995
E.H. Bancroft, D.D.
Editora Batista Regular
Palestras Introdutórias à Teologia Sistemática – 3ª edição – 1994
Henry Clarence Thiessen
Editora Batista Regular
Conhecendo as Doutrinas da Biblia – 23ª edição – 1996
Myer Pearlman
Editora Vida

O cristão e as festas juninas

O cristão e as festas juninas

Sempre que chega essa época do ano (junho/julho) muitos crentes ficam com a pulga atrás da orelha com relação às famosas festas juninas. Posso ou não posso participar? Estarei cultuando santos se participar? Estarei cometendo algum pecado participando desse tipo de festa? Na escola de meu filho vai ter festa junina, posso deixá-lo participar? Na minha rua o pessoal está organizando uma festa junina, devo contribuir e estar em meio a eles?

Duas respostas têm sido dadas a esta pergunta. Primeiro, há os que dizem “sim”, uma vez que entendem as festas juninas como celebrações cristãs. Afirma-se, nesse caso, que estamos diante de festejos ligados a personagens bíblicos tais como João Batista, Pedro e Paulo e isso, por si só, legitima tais festas como integrantes do calendário cristão. Essa é a posição defendida pela Igreja Católica Apostólica Romana.

Outros respondem com um absoluto “não”. Entendem que o modo como o Catolicismo Romano ensina sobre os santos não é bíblico. A Bíblia não prescreve nenhuma festa ligada aos profetas ou apóstolos, muito menos a nenhum ser humano canonizado pela igreja. Não há espaço para a crença em santos mediadores. Segundo as Escrituras “há um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5). Essa é a posição defendida pela maioria dos evangélicos tradicionais.

Nós evangélicos não concordamos e não devemos participar das festas juninas porque, na verdade, essa é uma celebração a santos. As comidas e as danças, longe de ser apenas uma diversão, são oferecidas a eles. A festa junina não é cultural, puramente falando. Mas é religiosa, associada ao culto de santos. A Bíblia é muito clara em relação à idolatria e à exortação a não cultuarmos outros deuses, lembramos que somos monoteístas (leia 1 Sm. 15: 23; At. 17:16; 1 Co. 01:14; e Gl. 5:20. Sobre comida sacrificada aos ídolos, leia At. 15:20; Rm. 14:15-21; 1 Co. 8;10:25-33).

A festa junina não é cultural, puramente falando, mas, sim, da cultura religiosa, e da religião cristã católica, associada ao culto de santos, como santo Antônio e outros. Onde um crente protestante poderia coadunar com isso? Quer pamonha, curau, milho verde, cachorro quente? Faz em casa e reúne os amigos. Mas ir a uma paróquia participar é meio contraditório. Se for assim, vamos participar de todo ritual religioso professado no Brasil como ritos de umbanda e candomblé, orientais e outros que também oferecem a deuses e guias comidas e festas.

É bem mais instrutivo, bíblico e edificante explicar a criança as razões pelas quais ela não participará da festa junina. “As festas juninas, aparentemente inofensivas, enquadram-se na mesma categoria das outras festas pagãs. A festa junina tem sido uma grande arma na mão do maligno e, por meio dessa arma, tem conseguido atingir milhares de famílias “cristãs”. Aos pais, evitem que os filhos participem dessas comemorações promovidas pelos colégios, associações ou outras entidades. Já basta de tantos enganos. Fechemos as portas para essas heresias que sutilmente tem achado brecha nas nossas vidas. A Bíblia diz: “portanto, quer comais ou bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Cor. 10:31). Tudo que fazemos deve glorificar o nome do Senhor. As festas juninas e suas comidas dedicadas ao santo, não glorificam o nome do Senhor. …”Isto é coisa sacrificada a ídolo, não comais (1 Cor. 10:28). A Bíblia ainda diz, em Provérbios 27:20: “O inferno e a perdição nunca se fartam, e os olhos do homem nunca se satisfazem”. Também sabemos que “um abismo chama outro abismo”, como narra o Salmos 42:7.”

E para pior a situação, em nosso tempo há igreja evangélicas trazendo a festa para dentro da igreja, pegando uma festa pagã, colocando um nome de evangélico e oferecendo ao povo de Deus. Essa ideia de tornar o profano santo, mas penso qual a necessidade de ter uma festa igual ao do mundo na igreja? Será que Deus quer uma festa com as características da festa “do mundo” (pagã) para servir de adoração a ele?

Logico que não, uma das características do povo de Deus que chama a atenção do mundo é que somos diferentes do mundo, mas agora muitas igrejas se igualando ao mundo, lamentável.

Se seu pastor está fazendo festas pagãs na sua igreja, observe se vale a pena continuar ainda nessa igreja, pois a luz da palavra não é correto.

Então não vá a essas festas, melhor tirar esse tempo para edificação ao Senhor.

 

A história do Apóstolo Paulo

A história do Apóstolo Paulo

Paulo de Tarso, o apóstolo Paulo, sem dúvida é um dos personagens bíblicos mais conhecidos por todos os cristãos. Ele considerado como sendo o maior líder do cristianismo. Neste texto, nós conheceremos mais sobre a história de Paulo, autor de treze epístolas presentes na Bíblia.

Biografia do apóstolo Paulo

Paulo, nome romano de Saulo, nasceu em Tarso na Cilícia (Atos 16:37; 21:39; 22:25). Tarso não era um lugar insignificante (Atos 21:39), ao contrário, era um centro de cultura grega. Tarso era uma cidade universitária que ficava próxima da costa nordeste do Mar Mediterrâneo. Embora tenha nascido um cidadão romano, Paulo era um judeu da Dispersão, um israelita circuncidado da tribo de Benjamin, e membro zeloso do partido dos Fariseus (Romanos 11:1; Filipenses 3:5; Atos 23:6).

A infância e adolescência do apóstolo Paulo tem sido tema de grande debate entre os estudiosos. Alguns defendem que o apóstolo Paulo passou toda sua infância em Tarso, indo apenas durante sua adolescência para Jerusalém. Outros defendem que Paulo foi para Jerusalém ainda bem pequeno. Nesse caso, ele teria passado sua infância longe de Tarso. Na verdade, desde seu nascimento até seu aparecimento em Jerusalém como perseguidor dos cristãos, conforme os relatos do livro de Atos dos Apóstolos, há pouca informação sobre a vida do apóstolo Paulo.

Embora não se saiba ao certo com quantos anos Paulo saiu de Tarso, sabe-se com certeza que ele foi educado em Jerusalém, sob o ensino do renomado doutor da lei, Gamaliel, neto de Hillel. Paulo conhecia profundamente a cultura grega. Ele também falava o aramaico, era herdeiro da tradição do farisaísmo, estrito observador da Lei e mais avançado no judaísmo do que seus contemporâneos (Gálatas 1:14; Filipenses 3:5,6). Considerando todos estes aspectos, pode-se afirmar que sua família possuía alguns recursos e desfrutava de posição proeminente na sociedade.

O apóstolo Paulo possuía cidadania romana. Sobre isso, ele próprio afirma ser cidadão romano de nascimento (Atos 22:28). Provavelmente essa declaração indica que sua cidadania foi herdada de seu pai. Estima-se que naquele tempo pelo menos dois terços da população do Império Romano não possuía cidadania romana. Não se sabe ao certo como o pai do apóstolo conseguiu tal cidadania. Algumas pessoas importantes e abastadas conseguiam comprar a cidadania (Atos 22:28). Outras, conseguiam tal cidadania ao prestar algum relevante ao governo romano. A cidadania romana concedia alguns privilégios, dentre os quais podemos citar:

A garantia do julgamento perante César, se exigido, nos casos de acusação.

Imunidade legal dos açoites antes da condenação.

Não poderia ser submetido à crucificação, a pior forma de pena de morte da época.

Paulo de Tarso, o perseguidor

O livro de Atos dos Apóstolos informa que quando Estêvão foi apedrejado, suas vestes foram depositadas aos pés de Paulo de Tarso (Atos 7:58). Após esse episódio da morte de Estêvão, Paulo de Tarso assumiu uma posição importante na perseguição aos cristãos. Ele recebeu autoridade oficial para liderar as perseguições. Além disso, na qualidade de membro do concílio do Sinédrio, ele dava o seu voto a favor da morte dos cristãos (Atos 26:10).

O próprio Paulo afirma que “respirava ameaça e morte contra os discípulos do Senhor” (Atos 9:1). Além de deflagrar a perseguição em Jerusalém, ele ainda solicitou cartas ao sumo sacerdote para as sinagogas em Damasco. Seu objetivo era levar preso para Jerusalém qualquer um que fosse seguidor de Cristo, tanto homem como mulher (Atos 9:2). Paulo perseguia e assolava a Igreja de Deus (Gálatas 1:13). Ele fazia isso acreditando que estava servindo a Deus e preservando a pureza da Lei.

A conversão de Paulo de Tarso

As narrativas no livro de Atos, e as notas do próprio apóstolo Paulo em suas epístolas, sugerem uma súbita conversão. Entretanto, alguns intérpretes defendem que algumas experiências ao longo de sua vida devem tê-lo preparado previamente para aquele momento. A experiência do martírio de Estêvão e sua campanha de casa em casa para perseguir os cristãos podem ser exemplos disto (Atos 8:1-3; 9:1,2; 22:4; 26:10,11).

O que se sabe realmente é que Paulo de Tarso partiu furiosamente em direção a Damasco com o intuito de destruir a comunidade cristã daquela cidade. De repente, algo inesperado aconteceu, algo que causou uma mudança radical, não só na vida de Paulo de Tarso, mas no curso da História.

E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu.

E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?
E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões.

E ele, tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que eu faça? E disse-lhe o Senhor: Levanta-te, e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer. (Atos 9:3-6)

Ao escrever Atos dos Apóstolos, Lucas interpreta a conversão de Paulo de Tarso como um ato miraculoso, um momento em que um inimigo declarado de Cristo transformou-se em apóstolo seu. Os homens que estavam com Paulo ouviram a voz, mas não compreenderam as palavras. Eles ficaram espantados, mas não puderam ver a Pessoa de Cristo.

Por outro lado, Paulo viu o Cristo ressurreto e ouviu suas palavras. Esse encontro foi tão importante para Paulo que a base de sua afirmação sobre a legalidade de seu apostolado está fundamentada nessa experiência (1 Coríntios 9:1; 15:8-15; Gálatas 1:15-17). Considerando que Paulo de Tarso não havia sido um doze discípulos de Jesus, além de ter perseguido seus seguidores, a necessidade e importância da revelação pessoal de Cristo para Paulo fica evidente. Essa experiência transformou Paulo de Tarso profundamente como é possível notar:

Respondeu ao chamado de Cristo: o primeiro aspecto da mudança na vida do apóstolo Paulo pode ser percebido quando, imediatamente, ele responde à voz de Cristo: “Senhor, que queres que eu faça?” (Atos 9:6). Essa pergunta marcou o começo de seu novo relacionamento com Cristo (Gálatas 2:20).

De perseguidor a pregador do Evangelho: a mudança radical que atingiu a vida do apóstolo Paulo fica evidente na mensagem que ele começou a pregar na própria cidade de Damasco. Isso é realmente impressionante. Ele começou a pregar o Evangelho no mesmo lugar  em que pretendia prender os seguidores de Cristo (Atos 9:1,2).

Mudança de vida total: antes da conversão, Paulo de Tarso não aceitava a divindade de Jesus. Ele até acreditava que ao perseguir seus seguidores como um animal selvagem, tentando força-los a blasfemar contra Jesus, estaria fazendo a vontade de Deus (Atos 26:9-11; 1 Coríntios 12:3). É certo dizer que ele via Jesus como um impostor. Após sua conversão, sua pregação não era outro senão anunciar que Jesus é o Filho de Deus (Atos 9:20). O Paulo duro, rigoroso, ameaçador e violento de outrora, depois de convertido passou a demonstrar ternura, sensibilidade e amor. Essas características ficam evidentes em suas obras.

O início do ministério do apóstolo Paulo

Após o encontro que teve com Cristo, o apóstolo Paulo chegou em Damasco e recebeu a visita de Ananias. Foi Ananias quem o batizou (Atos 9:17,18). Também foi ali, naquela mesma cidade, que Paulo começou sua obra evangelística.

Não há informações detalhadas sobre os primeiros anos de seu ministério. O que se sabe é que o apóstolo Paulo pregou rapidamente em Damasco e depois foi passar um tempo na Arábia (Atos 9:20-22; Gl 1:17). A Bíblia não esclarece o que ele fez ali, nem mesmo qual o lugar específico da Arábia em que ele ficou. Depois, o apóstolo Paulo retornou a Damasco, onde sua pregação provocou uma oposição tão grande que ele precisou fugir para salvar sua própria vida (2 Coríntios 11:32,33).

Naquela ocasião ele fugiu para Jerusalém (Gálatas 1:18). Nesse tempo havia completado cerca de três anos de sua conversão. Paulo tentou juntar-se aos discípulos, porém estavam todos receosos com ele. Foi então que Barnabé se dispôs a apresentá-lo aos líderes dos cristãos. Entretanto, seu período em Jerusalém foi muito rápido, pois novamente os judeus procuravam assassiná-lo.

Por conta disso, os cristãos decidiram despedir Paulo, uma decisão confirmada pelo Senhor numa visão. Segundo o que ele próprio afirma em Gálatas 1:18, ele ficou somente quinze dias com Pedro. Essa informação se harmoniza com o relato de Atos 22:17-21. Paulo acabou deixando Jerusalém antes que pudesse se encontrar com os demais apóstolos, e também antes de se tornar conhecido pessoalmente pelas igrejas da Judeia. Porém, os crentes de toda aquela região já ouviam as boas-novas sobre Paulo.

E não era conhecido de vista das igrejas da Judéia, que estavam em Cristo;

Mas somente tinham ouvido dizer: Aquele que já nos perseguiu anuncia agora a fé que antes destruía. (Gálatas 1:22,23)

O silêncio em Tarso e o trabalho em Antioquia

Logo depois o apóstolo Paulo foi enviado à sua cidade natal, Tarso. Ali ele passou um período de silêncio de cerca de dez anos. Embora esses anos sejam conhecidos como o sendo o período silencioso do ministério do apóstolo Paulo, é provável que ele tenha fundado algumas igrejas naquela região. Estudiosos sugerem que as igrejas mencionadas em Atos 15:41, tenham sido fundadas por Paulo durante esse mesmo período.

É certo que Barnabé, ao ouvir falar da obra que Paulo estava desempenhando, solicitou a presença do apóstolo em Antioquia na posição de um obreiro auxiliar. O objetivo era que Paulo o ajudasse numa promissora missão evangelística entre os gentios. Após cerca de um ano, ocorreu um período de grande fome. Então os crentes de Antioquia providenciaram contribuições para servir de auxílio aos cristãos da Judéia. Essas contribuições foram levadas por Paulo e Silas. Havendo completado sua missão, Paulo e Silas regressaram a Antioquia.

Esse período em Antioquia foi essencial no ministério do apóstolo Paulo. Foi ali que sua missão de levar o Evangelho aos gentios começou a ganhar força. Foi enquanto estava em Antioquia que o Espírito Santo orientou a Igreja a separar Barnabé e Paulo para a obra à qual Deus os chamara. Só então tiveram início as viagens missionárias do apóstolo Paulo.

E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.

Então, jejuando e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram. (Atos 13:2,3)

As viagens missionárias do apóstolo Paulo

O trabalho evangelístico do apóstolo Paulo abrangeu um período de cerca de dez anos. Esse trabalho aconteceu principalmente em quatro províncias do Império Romano: Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia. Paulo concentrava-se nas cidades-chave, isto é, nos maiores centros populacionais de sua época. Isso fazia parte de seu planejamento missionário. Quando alguns judeus e gentios aceitavam a mensagem do Evangelho, logo esses convertidos tornavam-se o núcleo de uma nova comunidade local. Dessa forma, o apóstolo Paulo alcançou até mesmo as áreas rurais. A estratégia missionária usada pelo apóstolo Paulo pode ser resumida da seguinte forma:

Ele trabalhava nos grandes centros urbanos, para que dali a mensagem se propagasse nas regiões circunvizinhas.

Ele pregava nas sinagogas, a fim de alcançar judeus e prosélitos gentios.

Ele focava sua pregação na comprovação de que a nova dispensação é o cumprimento das profecias da antiga dispensação.

Ele percebia as características culturais e as necessidades dos ouvintes. Assim ele aplicava tais particularidades em sua mensagem evangélica.

Ele mantinha o contato com as comunidades cristãs estabelecidas. Esse contato se dava por meio da repetição de visitas e envio de cartas e mensageiros de sua confiança.

Ele estava atento as desigualdades presentes na sociedade de sua época, e promovia a unidade entre ricos e pobres, gentios e judeus. Além disso, ele solicitava que as igrejas mais prósperas auxiliassem os mais pobres.

Em Atos 14:21-23, é possível perceber que o método de Paulo para estabelecer uma igreja local obedecia a um padrão regular. Primeiramente era feito um trabalho dedicado ao evangelismo, com a pregação do Evangelho. Depois havia um trabalho de edificação, onde os crentes convertidos eram fortalecidos e encorajados. Por último, presbíteros eram escolhidos em cada igreja, para que a organização eclesiástica fosse estabelecida.

Primeira viagem missionária

A primeira viagem missionária de Paulo está registrada em Atos 13:1-14:28). Não se sabe exatamente quanto tempo durou essa primeira viagem. Sabe-se apenas que ela deve ter ocorrido por volta de 44 e 50 d.C. O ponto de partida foi Antioquia, um lugar que havia se tornado um tipo de centro do Cristianismo entre os gentios.

Basicamente a viagem foi concentrada na Ilha de Chipre e na parte sudeste da província romana da Galácia. Barnabé foi o líder até um determinado momento da viagem, e Paulo era o pregador principal. João Marcos servia como auxiliador dos missionários principais. Entretanto, João Marcos os deixou (literalmente os abandonou) e retornou para Jerusalém. A partir desse ponto, o apóstolo Paulo assumiu a liderança da missão.

Segunda viagem missionária

A segunda viagem missionária de Paulo está registrada em Atos 15:36-18:22. O propósito dessa viagem, conforme o próprio Paulo diz, era visitar os irmãos por todas as cidades em que a palavra do Senhor já havia sido anunciada (Atos 15:36). No entanto, ao discordarem sobre a ida de João Marcos na viagem missionária, Paulo e Barnabé decidiram se separar. Então Paulo levou consigo Silas, também chamado de Silvano.

A data provável dessa viagem fica entre os anos de 50 e 54 d.C. Essa segunda viagem cobriu um território bem maior do que a primeira, estendendo-se até a Europa. A obra evangelística foi concluída na Macedônia e Acaia, e as cidades visitadas foram: Filipos, Tessalônica, Beréia, Atenas e Corinto.

O apóstolo Paulo permaneceu em Corinto um longo tempo (Atos 18:11,18). Ali ele pregou o Evangelho e exerceu sua atividade profissional de fazer tendas. Foi dessa cidade que ele enviou a Epístola aos Gálatas e, provavelmente, um pouco depois, também enviou as Epístolas aos Tessalonicenses. Paulo também parou brevemente em Éfeso, e ao partir prometeu retornar em outra ocasião (Atos 18:20,21).

Terceira viagem missionária

A terceira viagem missionária de Paulo está registrada em Atos 18:23-21:16. Essa viagem ocorreu entre 54 e 58 d.C. O apóstolo Paulo atravessou a região da Galácia e Frígia e depois prosseguiu em direção a Ásia e à sua principal cidade, Éfeso. Ali o apóstolo ficou por um longo período, cumprindo a promessa anteriormente feita (Atos 19:8-10; 20:3).

É provável que todas, se não pelo menos a maioria das sete igrejas da Ásia, tenha sido fundada durante esse período. Parece que antes de Paulo escrever a Primeira Epístola aos Coríntios, ele fez uma segunda visita à cidade de Corinto, regressando logo depois para Éfeso. Então, mais tarde, ele escreveu 1 Coríntios.

Quando deixou Éfeso, Paulo partiu para a Macedônia. Foi ali, talvez em Filipos, que ele escreveu a Segunda Epístola aos Coríntios. Depois, finalmente o apóstolo Paulo passou pela terceira vez em Corinto. Antes de partir dessa cidade, provavelmente ele escreveu a Epístola aos Romanos (cf. Romanos 15:22-25).

O resultado das viagens missionárias do apóstolo Paulo foi extraordinário. O Evangelho se espalhou consideravelmente. Estima-se que perto do final do período apostólico, o número total de cristãos no mundo era em torno de quinhentos mil. Apesar de esse resultado ter sido fruto de um árduo trabalho que envolveu um enorme número de pessoas, conhecidas e anônimas, o obreiro que mais se destacou nessa missão certamente foi o apóstolo Paulo.

O debate do apóstolo Paulo com Pedro

Em um determinado momento, devido ao crescente número de gentios na Igreja, questões a respeito da Lei e dos costumes judaicos sugiram entre os cristãos. Muitos cristãos judeus insistiam que os gentios deveriam observar a Lei Mosaica. Eles queriam que os crentes gentios se enquadrassem nos costumes judaicos, principalmente em relação à circuncisão. Para eles, só assim poderia haver igualdade na comunidade cristã.

O apóstolo Paulo identificou esse movimento judaizante como uma ameaça à verdadeira natureza do Evangelho da graça. Por isso ele se posicionou claramente contra essa situação. Diante dessas circunstâncias, o apóstolo Paulo repreendeu Pedro publicamente (Gálatas 2:14). Pedro havia se separado de alguns crentes gentios, a fim de evitar problemas com certos cristãos judaizantes. Esse também foi o pano de fundo que levou o apóstolo Paulo a escrever uma epístola de advertência aos Gálatas. Nessa epístola ele apresenta com grande ênfase o tema da salvação pela graça mediante a fé.

Podemos dizer que esse acontecimento foi a primeira crise teológica da Igreja. Para que o problema fosse solucionado, Paulo e Barnabé foram enviados a uma conferência com os apóstolos e anciãos em Jerusalém. O concílio decidiu que, de forma geral, os gentios que se convertessem não estavam sob a obrigação de observar os costumes judaicos.

Prisões e morte do apóstolo Paulo

Existe muita discussão em relação ao número de prisões que o apóstolo Paulo sofreu. Essa discussão de dá, principalmente pelo fato de o livro de Atos não descrever toda a história do apóstolo Paulo. Além disso, provavelmente o apóstolo Paulo foi preso algumas vezes por um período muito curto de tempo, como por exemplo, em Filipos (Atos 16:23).

Ao falar sobre suas próprias prisões, o apóstolo Paulo escreve o seguinte:

São ministros de Cristo? (falo como fora de mim) eu ainda mais: em trabalhos, muito mais; em açoites, mais do que eles; em prisões, muito mais; em perigo de morte, muitas vezes.
(2 Coríntios 11:23)

Considerando apenas as principais prisões do apóstolo Paulo, sabe-se que ele foi preso em Jerusalém (Atos 21), e para impedir que fosse linchado, ele foi transferido para Cesareia. Nessa cidade Felix, o governador romano, deixou o apóstolo Paulo na prisão por dois anos (Atos 23-26). Festo, sucessor de Felix, sinalizou que poderia entregar Paulo aos judeus, para que por eles ele fosse julgado.

Como Paulo sabia que o resultado do julgamento seria totalmente desfavorável a sua pessoa, então na qualidade de cidadão romano, ele apelou para César. Depois de um discurso perante o rei Agripa e Berenice, o apóstolo Paulo foi enviado sob escolta para Roma. Após uma terrível tempestade, o navio a qual ele estava naufragou, e Paulo passou o inverno em Malta.

Finalmente o apóstolo Paulo chegou a Roma na primavera. Na capital do Império ele passou dois anos em prisão domiciliar. Apesar disso ele tinha total liberdade para ensinar sobre o Evangelho (Atos 28:31). É exatamente nesse ponto que termina a história descrita no livro de Atos dos Apóstolos. O restante da vida de Paulo precisa ser contado utilizando-se os registros de outras fontes.

Por isso, as únicas informações adicionais que encontramos no Novo Testamento sobre a biografia do apóstolo Paulo, parte das Epístolas Pastorais. Essas epístolas parecem sugerir que o apóstolo Paulo foi solto depois dessa primeira prisão em Roma relatada em Atos por volta de 63 d.C. (2 Timóteo 4:16,17). Após ser solto, ele teria visitado a área do Mar Egeu e viajado até a Espanha.

O martírio em Roma

 

Depois, novamente Paulo foi aprisionado em Roma. Desa última vez ele acabou executado pelas mãos de Nero por volta de 67 e 68 d.C. (2 Timóteo 4:6-18). Tudo isso indica que as Epístolas Pastorais documentam situações não historiadas em Atos. A Epístola de Clemente (cerca de 95 d.C.) e o cânon Muratoriano (cerca de 170 d.C.) testificam sobre uma viagem do apóstolo Paulo a Espanha.

A tradição cristã conta que a morte do apóstolo Paulo ocorreu junto da estrada de Óstia, fora da cidade de Roma. Ele teria sido decapitado. Talvez o texto que mais defina a biografia do apóstolo Paulo seja exatamente esse:

Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.

Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda. (2 Timóteo 4:7,8)

Epístolas escritas pelo apóstolo Paulo

Romanos

I Coríntios

II Coríntios

Gálatas

Efésios

Filipenses

Colossenses

I Tessalonicenses

II Tessalonicenses

I Timóteo

II Timóteo

Tito

Filémon

 

Tudo posso naquele que me fortalece

Tudo posso naquele que me fortalece

Um estudo exegético de Filipenses 4:13 

Será que o Cristão pode fazer de tudo? Será que temos, por meio de Cristo, poder para realizar qualquer feito? O que é que Paulo quis dizer com esta declaração ousada?

O contexto imediato

Esta passagem tem sido entendida por muitos Cristãos como uma afirmação geral de que realmente “tudo” podemos fazer. Como sempre é necessário observar o contexto da passagem. O contexto imediato (Fil 4:10-20) indica que Paulo está tratando de necessidades pessoais. Podemos ver isso quando ele usa frases e termos como “pobreza” (v. 11) “fartura e fome”; “abundância e escassez” (v. 12); “dar e receber” (v. 15) e “necessidades” (vv. 16 e 19). Todas estas palavras e frases tratam de necessidades físicas e imediatas como comida e moradia. Ele pessoalmente passou por necessidades nestas áreas e está mostrando como Cristo lhe deu força para enfrentá-las.

Paulo poderia, de repente, sair deste contexto para formalizar uma afirmação sobre todas as necessidades em geral. Ou, como alguns entendem pela frase isolada, ele poderia dizer que, por meio de Cristo, consegue realizar de tudo. No entanto, para fazer isso, seria esperado que Paulo desse algum sinal de tal mudança. A ausência de uma sinalização não impede de forma categórica esta possibilidade. Mas, sendo que o contexto imediato é satisfatório, e que não há evidência clara dele ter intencionado uma afirmação mais geral, devemos concluir que o ponto dele neste versículo é de que, dentro das necessidades pessoais (embora estas necessidades sejam enormes), com Cristo, ele terá tudo que precisa para lidar com elas.

Como Paulo usava “tudo”

Ajuda-nos a entender que Paulo, como autores e oradores modernos, às vezes usava o adjetivo “tudo” (gr. panta de pas) para se referir à maior parte ou à maioria de uma categoria, sem necessariamente se referir a algo em sua totalidade.

Podemos ver este tipo de uso em passagens como 1 Cor. 9:22 “…Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns.” Paulo não quis dizer que havia se tornado absolutamente tudo para com toda a humanidade. O ponto dele foi de que ele se esforçou, negando seus próprios interesses e tendências, para influenciar todos aqueles com quem ele teve contato e oportunidade.

De forma parecida, em Colossenses 1:28 Paulo afirmou “o qual nós anunciamos, advertindo a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo”. Aqui Paulo não quis dizer que ensinava literalmente todos os homens existentes, nem que aquilo que ele ensinava fosse toda a sabedoria existente. O ponto dele, novamente, se restringia àqueles dentro do seu raio de alcance e à sabedoria necessária e suficiente para a plena vida em Cristo.

Da mesma forma, em Fil 2:21, ao dizer, “pois, todos eles buscam o que é seu próprio, não o que é de Cristo Jesus.” Paulo não estava se referindo à totalidade da raça humana, nem a todos da cidade de Roma, onde ele se encontrava (Fil 1:13). Ele estava se referindo a muitos outros que não se preocupavam com seus interesses da forma como Timóteo havia feito. Mas, presumimos que Paulo contaria entre aqueles em quem confiava pessoas como Epafrodito (4:18) e os da casa de César (4:22). Portanto, ele não estava relegando nem a raça como um todo, nem toda a população de Roma ao grupo dos que “buscam o que é seu próprio, não o que é de Cristo Jesus.” Ele quis dizer que muitos eram assim, porém Timóteo era diferente.

De igual modo, ao dizer em Fil 4:13 “Tudo posso naquele que me fortalece”, Paulo não quis dizer “tudo” num sentido absoluto. O que ele quis dizer era que, de todas as coisas que havia passado que necessitavam de poder para enfrentar, como pobreza, fome, escassez e necessidades, Cristo supria toda esta força que ele precisava. É neste sentido que Paulo escreveu “Tudo posso naquele que me fortalece”. Pelo que já havia passado, Paulo tinha confiança, e quis passar esta mesma confiança aos Cristãos em Felipo, de que Cristo havia de suprir toda a força que eles precisavam, seja qual fosse a situação. É por isso que ele encoraja os Cristãos em Felipo com as palavras “E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades” (4:19).

O foco da passagem

Embora muitas traduções modernas como a NVI, ARA e BJ traduzam o verso praticamente igual como “tudo posso naquele que me fortalece”, aqui a NTLH traz uma tradução bastante interessante “Com a força que Cristo me dá, posso enfrentar qualquer situação”. Esta tradução é salutar, pois coloca a ênfase em Cristo e demonstra que o objetivo não é as conquistas do homem e sim sua capacitação para, com Cristo, enfrentar as situações, tão adversas quanto forem, que a vida traz.

É um equívoco pensar que o ponto de Paulo é que, com Cristo, ele pode alcançar grandes realizações ou conquistas. Paulo, embora falando das coisas que fazia por conta própria, já descartou a importância das grandes realizações pessoais. Em 3:4-8 Paulo relembrou suas grandes conquistas em nome do zelo religioso. Daí ele mostrou como o simples conhecer e comunhão com Cristo era muito superior a todas as suas conquistas (3:8,10). Dificilmente Paulo agora estaria chamando a atenção dos Cristãos em Felipo para a ideia de realizar grandes coisas, mesmo com Cristo. O ponto de Paulo é de assegurar estes irmãos de que, na abundância ou na adversidade, Cristo os faria fortes o suficiente para lidar com qualquer situação, permanecendo fiéis a Ele.

Perigo de interpretação

Existe pelo menos um perigo de uma interpretação demasiadamente genérica deste versículo. Crentes podem ficar frustrados ou duvidando das promessas de Deus se tentarem coisas que consideram dentro da vontade de Deus, mas falharem. “Cristãos frequentemente anunciam, ‘Tudo posso naquele que me fortalece’, para assegurar a outros (e a eles mesmos) que podem ser bem-sucedidos em empreendimentos para os quais eles podem ou não ser qualificados. Fracasso subsequente os deixa transtornados com Deus como se ele tivesse quebrado uma promessa!”

Se “tudo posso naquele que me fortalece” significa que posso realizar qualquer obra ou feito, desde que seja algo que Deus teoricamente ia querer, então haverá muita frustração, pois nem sempre Deus de fato faz tudo que pode. Deus podia ter evitado que Cristo morresse na cruz (Mat 26:53). Certamente Ele não queria que Cristo tivesse que morrer na cruz. Mas, por causa do grande amor dEle por nós (outro aspecto da sua soberana vontade), Ele permitiu. Se nem Deus sempre faz tudo que pode e tudo que quer, podemos concluir que nem tampouco o homem fará, ou que Deus o fará por meio dele.

A Paulo, um homem de fé sincera e poderosa, foi negado algo bom e desejável que pediu ao Senhor – uma cura. Em 2 Coríntios 12:8-9 vimos que, apesar de toda sua fé e amor ao Senhor, Paulo não recebeu o que queria. Tudo posso naquele que me fortalece? Sim, se for da vontade de Deus.

Paulo tinha o dom de curar e curou muitas pessoas, chegando a curar todos numa ilha inteira (Atos 28:7-9). Mas, houve ocasião em que Paulo não pôde curar um discípulo próximo a ele, Trófimo (2 Tim 4:20). Tudo posso naquele que me fortalece? Sim, dentro dos limites que Deus estabelece e permite. Haverá ocasiões em que vamos querer fazer coisas boas, até coisas para Deus, mas não conseguiremos, porque não era a vontade de Deus naquele momento, ou naquela situação, ou com aquela pessoa.

A respeito desta passagem D.A. Carson alerta: – Uma antiga preferência é Filipenses 4.13: “… tudo posso naquele que me fortalece”. O “tudo” não pode ser completamente ilimitado (e. g., saltar sobre a lua, resolver “de cabeça” complexas equações matemáticas ou transformar areia em ouro); portanto, a passagem geralmente é exposta como um texto que promete aos crentes a força de Cristo em tudo o que eles têm a fazer ou em tudo o que Deus lhes ordena que façam. Sem dúvida, este é um conceito bíblico; contudo, no que se refere a esse versículo, dá-se pouca atenção ao contexto. O “tudo” aqui consiste em viver alegre em meio a fartura ou fome, em abundância ou escassez (Fp 4.10-12). Seja qual for sua situação, Paulo pode lutar com alegria por meio de Cristo, que o fortalece.

Concluímos que o ponto de Paulo em Filipenses 4:13 quanto àquilo que ele pode fazer se refere à força para enfrentar situações que a vida traz a ele, especificamente no sentido de necessidades pessoais. Mas a ênfase não está nele só, e sim nAquele que lhe dá esta força – Cristo Jesus. O versículo pode ser dividido em duas partes “tudo posso” e “naquele que me fortalece”. O mundo declara com orgulho e confiança “tudo posso” e pronto. O Cristão corrige, com humildade temperada pela fé em Jesus “Sei que enfrentarei muitas dificuldades nesta vida, e que sozinho seria derrubado, mas, ‘Com a força que Cristo me dá, posso enfrentar qualquer situação’.”

Hoje em dia os Cristãos ainda enfrentam as incertezas do desemprego, o medo da violência e da doença. É preciso assegurá-los de que, com Cristo, podemos lidar com qualquer situação, não importa quão adversa for. Podemos confiar em Deus de que Ele nos dará a força que precisamos. Basta caminharmos junto a Jesus.

E o “tudo” que podemos fazer?

Alguns ainda querem saber, “o homem pode fazer tudo o que ele precisa fazer?” Até isso, na verdade, é relativo. O homem às vezes pensa que precisa fazer algo, tenta fazer e se frustra quando não consegue. Ele declara que Deus não existe, ou reclama que Deus não ouviu suas orações. Mas, Deus muitas vezes sabe que há uma grande diferença entre o que o homem pensa que precisa e o que ele realmente precisa. Quando era jovem namorei uma moça e pensei que precisava casar com ela. Não deu certo. Acabei esperando até quase 40 anos de idade para casar. Hoje, sei que Deus me deu, graças à sua vontade que é sempre melhor, a esposa que eu realmente precisava.

Dentro da vontade soberana (e para nós muitas vezes misteriosa) de Deus, sim, diria que o homem pode fazer o que precisa. Mas, esse fazer nem sempre será o que ele quer. Prova disso é que há muita coisa que, além de poder fazer, devíamos fazer, mas nem sempre fazemos.

Talvez a grande questão não é se Deus me capacita para fazer tudo que preciso. Dentro da soberana vontade dEle, Ele sempre capacita. O problema é que eu nem sempre quero fazer tudo para o qual Ele me capacitou. “,

Talvez para Deus parece que queremos saber se podemos fazer de tudo, quando tão pouco fazemos com o “tudo” que já podemos. Que Deus nos ajude a, como Paulo, nos contentarmos não só com aquilo que Ele nos deu, mas com aquilo que Ele nos capacitou a fazer, e esmeremo-nos ao fazê-lo.

Martinho Lutero: Um novo cristianismo

Martinho Lutero: Um novo cristianismo

Quem vive no século 21 costuma ter dificuldade para entender a obsessão dos antigos europeus com o fim do mundo. Para um ex-monge que viveu no século 16, porém, era difícil não acreditar que o Apocalipse estivesse chegando. Ele deixou isso claro ao comentar o livro do profeta Daniel – um dos textos bíblicos que preveem o fim do mundo. “Tudo aconteceu e está consumado”, escreveu Martinho Lutero por volta de 1530. “O Império Romano [o Sacro Império Romano-Germânico] está no fim, os turcos batem à porta, o esplendor do papismo se desvaneceu e o mundo está rachando por toda parte, como se fosse cair aos pedaços.”

Se ainda estivesse vivo, é possível que Lutero ficasse decepcionado com a demora para que o Apocalipse ocorresse. Mas ele não forçou tanto a barra ao afirmar que o fim estava próximo. Graças ao ex-monge alemão e a uma geração de reformadores religiosos, um mundo, pelo menos, já tinha acabado: aquele que, durante mais de 1100 anos, unira os cristãos do Ocidente. No lugar de uma só igreja, monolítica, dominada pela supremacia do papa em Roma, metade da Europa Ocidental foi sendo tomada por igrejas que consideravam a velha tradição católica como uma corrupção inaceitável dos ideais cristãos.

Esse desejo de renovação espiritual foi um dos pilares da Reforma Protestante. Mas como ela escapou de virar apenas outra “heresia” esmagada pela Igreja? O contexto histórico ajudou. Alguns camponeses, por exemplo, viram na Reforma a chance de corrigir injustiças do sistema feudal. Enquanto isso, no topo da sociedade européia, nobres sentiram que o grito dos reformadores era um ótimo pretexto para arrancar o poder de papas, cardeais e arcebispos. A mistura de intenções puras e objetivos interesseiros ajudou a Reforma a ir longe e redefiniu o mapa da Europa.

Tremor nas fundações

No começo do século 16, falar em “reforma” era conversa velha. Fazia centenas de anos que os intelectuais e místicos europeus malhavam a bagunça generalizada que parecia ter tomado conta da Igreja. “Na Idade Média, a palavra reformatio estava na boca de todos, assim como ocorre hoje com a palavra ‘democracia’. E se caracterizava pela mesma multiplicidade de significados”, diz o holandês Heiko Oberman, um dos grandes estudiosos da Reforma, no livro Luther: Man Between God and the Devil (“Lutero: o homem entre Deus e o Diabo”, inédito no Brasil).

Os críticos atacavam a vida de riqueza e decadência dos líderes católicos e ficavam exasperados com a maneira como os altos cargos da hierarquia eclesiástica (que muitas vezes eram acompanhados pela posse de ricos feudos) viravam moeda de troca política. Mas o hábito que provavelmente mais escandalizava os intelectuais era a venda de indulgências. Com doações à Santa Sé, os cristãos mais abastados podiam, através de rezas por encomenda, reduzir o tempo no Purgatório e agilizar sua ida ao Paraíso – era quase como comprar um lugar no céu.

Todos os defensores da tal reformatio, entretanto, queriam corrigir o cristianismo de dentro para fora. Quebrar a unidade da Igreja era algo quase impensável. “Havia dissidências, mas elas geralmente eram localizadas, excessivamente diversificadas e sem coordenação”, diz Euan Cameron, professor de Religião da Universidade Columbia, nos Estados Unidos.

Quem deu uma mãozinha para tornar o reformismo mais radical foi o Renascimento. Com o declínio da Idade Média na Europa, a filosofia e a arte da Antiguidade estavam sendo redescobertas por estudiosos. Isso incluía os pensadores do começo do cristianismo e o texto original da Bíblia. Era a primeira vez em muito tempo que os acadêmicos da Europa Ocidental tentavam ler os Evangelhos em grego ou o Antigo Testamento em hebraico, deixando de se guiar apenas pelas versões em latim preferidas pela Igreja. Os textos antigos faziam seus leitores repensar as bases da própria fé e comparar o passado “santo” do cristianismo com seu presente mundano. O meio universitário europeu permitia uma certa liberdade para discutir esses temas.

Além do Renascimento, profundas mudanças sociais completavam o cenário favorável à Reforma. Com o desenvolvimento do capitalismo, surgia um mercado europeu dinâmico, envolvendo banqueiros, artesãos e comerciantes que queriam se ver livres de amarras políticas e religiosas para negociar. Especialmente na Alemanha, a terra natal de Lutero, muitas regiões começavam a se ver mais como parte de uma grande nação alemã que como membros do velho Sacro Império (que se estendia da França à atual República Checa), muito influenciado pelo papado.

Confusão na porta

Num ambiente cheio de insatisfação com a Igreja, quem deu o primeiro passo para uma mudança séria foi um monge alemão com doutorado que dava aulas na Universidade de Wittenberg. Nascido em 1483, Martinho Lutero era filho de um camponês que enriquecera ao se tornar empresário da área de mineração. Contrariando os interesses do pai, que queria fazer dele advogado, Lutero decidiu entrar para um convento ao escapar com vida de uma tempestade de raios.

O jovem se tornou um monge exemplar. Apesar disso, sua consciência vivia atormentada. Ele temia a justiça de Deus, acreditando que os seres humanos eram tão pecadores que jamais seriam capazes de alcançar a salvação. Estudando a Bíblia, ele concluiu que os cristãos só poderiam ser salvos pela fé: incapazes de se redimir por sua força interna ou por suas boas ações, os fiéis receberiam a salvação por meio da generosidade gratuita de Deus.

O papa contra-ataca
A resposta católica à Reforma 

Papa Paulo III, que convocou o Concílio de Trento

Roma demorou para formular uma resposta abrangente contra a ameaça da Reforma. Nos anos 1530, o Vaticano convocou uma comissão de religiosos de alta competência teológica e reconhecida moralidade para produzir um relatório sobre o que deveria mudar na Igreja. “O relatório, chamado de Consilium de Emendenda Ecclesia e apresentado ao papa em março de 1537, foi uma bomba”, escreve o historiador britânico Eamon Duffy no livro Santos e Pecadores – História dos Papas. A comissão disse que a culpa pela Reforma era do próprio Vaticano e listou uma série de medidas draconianas para botar a casa em ordem. Em termos de teologia, o texto chegava até a dar razão a Lutero em alguns pontos. Como dizia o cardeal inglês Reginald Pole, um dos autores, “os hereges (protestantes) não são hereges em tudo”. O próprio Lutero, aparentemente adorando tudo aquilo, fez questão de publicar uma tradução em alemão, com suas próprias – e irônicas – notas de rodapé.

A coisa pegou tão mal que o relatório acabou arquivado. Mas a Igreja continuou seus planos de reforma interna com o Concílio de Trento, reunião realizada entre 1545 e 1563 na cidade italiana de mesmo nome. Nele, os católicos fizeram questão de não ceder um milímetro na parte doutrinária, teológica e organizacional, reafirmando coisas como o uso de imagens, a devoção a Maria e aos santos e a autoridade do papa. Mas, ao mesmo tempo, o Vaticano fez um esforço sincero para elevar o nível cultural e moral dos padres: foi nessa época que surgiram, pela primeira vez, seminários sérios – em que os futuros padres eram educados com rigor. Além disso, houve um impulso poderoso para converter povos que nunca tinham tido contato com o cristianismo. Por meio dos jesuítas e outros grupos missionários, a Igreja transformou a América Latina num domínio totalmente católico – e conseguiu inúmeras conversões na Índia, na China, no Japão e nas Filipinas. Pelo menos em termos populacionais, o catolicismo parecia ter perdido parte da Europa para ganhar o mundo.

Se o raciocínio de Lutero estava correto, a prática das indulgências era ainda pior do que se costumava acreditar. A Igreja estaria basicamente fazendo propaganda enganosa, já que não teria poder para amenizar os pecados – cujo julgamento caberia apenas a Deus. Em 1517, Lutero escreveu uma lista de críticas sobre as indulgências, num texto que ficaria conhecido como as 95 Teses. Elas foram pregadas na porta da igreja do castelo de Wittenberg, à vista de todos. “O conteúdo teológico do documento não é especialmente importante. Sua importância vem do fato de que alguns editores com visão de negócios mandaram imprimi-lo, sem perceber que estavam instituindo uma revolução nas comunicações”, diz Robert Kolb, professor de Teologia Sistemática do Seminário Concórdia, nos Estados Unidos. Por volta de 1520, as 95 Teses e outros textos de Lutero tinham alcançado a incrível tiragem de 600 mil exemplares. Nada menos que 20% dos panfletos publicados na Alemanha entre 1500 e 1530 foram assinados pelo monge encrenqueiro – é como se, hoje em dia, um completo desconhecido passasse a ter o blog mais acessado do país.

Em semanas, boa parte dos intelectuais da Europa ficou sabendo da polêmica. Muitos se puseram do lado de Lutero. Já a Igreja recusou o debate teológico proposto pelo religioso e o ameaçou de excomunhão em 1520. Lutero não quis se retratar. No ano seguinte, ele foi chamado diante do imperador Carlos V e da Dieta (algo como a câmara dos deputados) do Sacro Império. Continuou irredutível. A partir daí, embora tenha conseguido escapar, ele se tornou um herege condenado à morte.

Templos modernos

Após passar uma temporada escondido, Lutero voltou a dar aulas em Wittenberg, protegido pelo príncipe Frederico III da Saxônia. Dizia que só a Bíblia podia ser considerada a palavra de Deus e que todos os cristãos eram sacerdotes. Não tão longe dali, outra voz se erguia contra a Igreja. Na década de 1520, o padre Ulrico Zwinglio tinha lançado na Suíça um ataque às indulgências parecido com o de Lutero e também defendia a supremacia da Bíblia sobre as autoridades eclesiásticas. Zwinglio se tornou um dos líderes políticos de Zurique e acabou com a veneração de imagens de santos e com a música nas cerimônias religiosas. Alguns cantões suíços se uniram a Zurique, enquanto outros declararam guerra aos “hereges”. O próprio Zwinglio acabaria morto em combate, em 1531.

Na Alemanha, alguns defensores das idéias de Lutero, como o padre Thomas Müntzer, começaram a interpretar a Reforma de um ponto de vista social. Afinal, se o único rei verdadeiro era Deus, por que continuar obedecendo à realeza? Camponeses, plebeus e até nobres se uniram a Müntzer e pegaram em armas. Entre 1524 e 1525, a Guerra dos Camponeses virou a Alemanha de pernas para o ar. Os nobres conseguiram massacrar os rebeldes – e foram apoiados por Lutero, que recusava o uso da violência defendido por Müntzer e considerava heréticas certas práticas dos revoltosos, como o batismo de adultos que já tinham sido batizados quando bebês.

As nações de língua alemã não eram as únicas a sofrer a influência dos reformistas. Nas décadas de 1520 e 1530, por exemplo, o luteranismo se tornou tão influente na Escandinávia que acabou levando a um rompimento da região com Roma. Já na Inglaterra, o rei Henrique VIII (tão católico que chegara a escrever um tratado contra Lutero), queria que o papa anulasse seu casamento com Catarina de Aragão. O problema é que a rainha era tia do líder do Sacro Império, Carlos V, a quem o papa não queria desagradar. Em 1533, persuadido por conselheiros com inclinações protestantes, Henrique VIII resolveu se divorciar sem autorização papal. Nascia aí a Igreja Anglicana, cuja liderança coube ao rei britânico. “Anos antes, a Reforma na Inglaterra parecia impossível, mas acabou se instaurando”, diz o historiador Christopher Haigh, da Universidade de Oxford, na Inglaterra. A nova religião começou quase como um catolicismo sem papa, mas foi sendo cada vez mais influenciada pela Reforma, até ficar no meio do caminho entre protestantismo e catolicismo.

O último golpe contra a antiga unidade cristã veio da França. Lá, um advogado chamado João Calvino desenvolveu doutrinas ainda mais radicais, que não só rejeitavam a autoridade do papa e a missa como consideravam que Deus predestinava apenas certas pessoas para a salvação. A partir de 1536, Calvino refugiou-se em Genebra, na atual Suíça, e, após vencer diversos conflitos, instituiu um sistema de governo dominado por sua visão do cristianismo. A cidade se tornou um centro de formação de missionários protestantes.

Enquanto isso, na Alemanha de Lutero, nobres rompiam com a Igreja e aproveitavam para tomar suas terras e riquezas. Para brecar a onda de mudanças, o imperador Carlos V deu início a uma guerra civil no Sacro Império. Sem conseguir vencer pelas armas, ele assinou um acordo com os luteranos: a Paz de Augsburgo, em 1555. Graças a ela, cada príncipe ficou livre para determinar a religião de seu território. A divisão da Europa cristã em duas tinha acabado de virar lei. Nos 100 anos seguintes, guerras religiosas ainda matariam muita gente na Europa. Lutero, contudo, não viveria para ver a Paz de Augsburgo nem o sangue derramado depois. Casado com a ex-freira Katharina von Bora, ele morreria em Eisleben, sua terra natal, em 1546.

Hoje, passados 500 anos da publicação das 95 Teses, protestantes e católicos já são capazes de dialogar pacificamente em debates sobre teologia. Mas, se não entram mais em guerra por causa de suas diferentes convicções religiosas, os dois lados ainda são antagonistas em disputas intensas. No Brasil, por exemplo, a Igreja Católica luta diariamente contra a perda de fiéis para o ramo mais jovem do protestantismo: as igrejas neopentecostais.

As 95 Teses publicadas em 31 de Outubro de 1517.

1 Ao dizer: “Fazei penitência”, etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.

2 Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).

3 No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula, se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.

4 Por consequência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus.

5 O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.

6 O papa não pode remitir culpa alguma senão declarando e confirmando que ela foi perdoada por Deus, ou, sem dúvida, remitindo-a nos casos reservados para si; se estes forem desprezados, a culpa permanecerá por inteiro.

7 Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.

8 Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.

9 Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade.

10 Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.

11 Essa erva daninha de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.

12 Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.

13 Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.

14 Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais, quanto menor for o amor.

15 Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero.

16 Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semidesespero e a segurança.

17 Parece desnecessário, para as almas no purgatório, que o horror diminua na medida em que cresce o amor.

18 Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontram fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.

19 Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza.

20 Portanto, sob remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.

21 Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.

22 Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.

23 Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.

24 Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.

25 O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.

26 O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.

27 Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].

28 Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, podem aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.

29 E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas? Dizem que este não foi o caso com S. Severino e S. Pascoal.

30 Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.

31 Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.

32 Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.

33 Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Deus.

34 Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.

35 Não pregam cristãmente os que ensinam não ser necessária a contrição àqueles que querem resgatar ou adquirir breves confessionais.

36 Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remissão pela de pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência.

37 Qualquer cristão verdadeiro, seja vivo, seja morto, tem participação em todos os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem carta de indulgência.

38 Mesmo assim, a remissão e participação do papa de forma alguma devem ser desprezadas, porque (como disse) constituem declaração do perdão divino.

39 Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar perante o povo ao mesmo tempo, a liberdade das indulgências e a verdadeira contrição.

40 A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, pelo menos dando ocasião para tanto.

41 Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor.

42 Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia.

43 Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.

44 Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.

45 Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.

46 Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.

47 Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.

48 Deve-se ensinar aos cristãos que, ao conceder indulgências, o papa, assim como mais necessita, da mesma forma mais deseja uma oração devota a seu favor do que o dinheiro que se está pronto a pagar.

49 Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.

50 Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

51 Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto – como é seu dever – a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extraem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.

52 Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.

53 São inimigos de Cristo e do papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas.

54 Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela.

55 A atitude do papa é necessariamente esta: se as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias.

56 Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.

57 É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam.

58 Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior.

59 S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.

60 É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que lhe foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem este tesouro.

61 Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos, o poder do papa por si só é suficiente.

62 O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.

63 Este tesouro, entretanto, é o mais odiado, e com razão, porque faz com que os primeiros sejam os últimos.

64 Em contrapartida, o tesouro das indulgências é o mais benquisto, e com razão, pois faz dos últimos os primeiros.

65 Por esta razão, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.

66 Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens.

67 As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tal, na medida em que dão boa renda.

68 Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade na cruz.

69 Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas.

70 Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbido pelo papa.

71 Seja excomungado e maldito quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas.

72 Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.

73 Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências,

74 muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram defraudar a santa caridade e verdade.

75 A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes ao ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura.

76 Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados veniais no que se refere à sua culpa.

77 A afirmação de que nem mesmo S. Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o papa.

78 Afirmamos, ao contrário, que também este, assim como qualquer papa, tem graças maiores, quais sejam, o Evangelho, os poderes, os dons de curar, etc., como está escrito em 1 Co 12.

79 É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insignemente erguida, equivale à cruz de Cristo.

80 Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes conversas sejam difundidas entre o povo.

81 Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil, nem para os homens doutos, defender a dignidade do papa contra calúnias ou perguntas, sem dúvida argutas, dos leigos.

82 Por exemplo: por que o papa não evacua o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas – o que seria a mais justa de todas as causas -, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica – que é uma causa tão insignificante?

83 Do mesmo modo: por que se mantêm as exéquias e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos?

84 Do mesmo modo: que nova piedade de Deus e do papa é essa: por causa do dinheiro, permitem ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, porém não a redimem por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta, por amor gratuito?

85 Do mesmo modo: por que os cânones penitenciais – de fato e por desuso já há muito revogados e mortos – ainda assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor?

86 Do mesmo modo: por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos mais ricos Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?

87 Do mesmo modo: o que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à remissão e participação plenária?

88 Do mesmo modo: que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações 100 vezes ao dia a qualquer dos fiéis?

89 Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências outrora já concedidas, se são igualmente eficazes?

90 Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos.

91 Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.

92 Fora, pois, com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo: “Paz, paz!” sem que haja paz!

93 Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo: “Cruz! Cruz!” sem que haja cruz!

94 Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno;

95 e, assim, a que confiem que entrarão no céu antes através de muitas tribulações do que pela segurança da paz.

 

 

O Verdadeiro Pentecostes

O Verdadeiro Pentecostes

Estamos na era dos substitutivos, do artificialismo e das aparências; a era dos plásticos, dos “aglomerados” e dos sabores artificiais. E no campo espiritual não é diferente. Vivemos em um tempo marcado por imitações, inovações, falsificações, misticismo e mudanças injustificáveis dentro das igrejas.

A Palavra de Deus fala claramente sobre as mudanças indevidas e seus resultados funestos. Paulo falou sobre isso na sua carta aos romanos. “E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis (…) pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém. Pelo que Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza”, Rm 1.23,25-26.
Profeta Daniel também nos fala de mudanças que serão realizadas pelo anticristo. “E proferirá palavras contra o Altíssimo, e destruirá os santos do Altíssimo, e cuidará em mudar os tempos, e a lei; e eles serão entregues na sua mão por um tempo, e tempos, e metade de um tempo”, Dn 7.25.

Algumas mudanças condenáveis que vemos nos dias de hoje são a Teologia da Libertação, o culto à prosperidade e a transformação indevida de fatos e eventos bíblicos em doutrina. Apóstolo Paulo nos alerta quanto a falsificar a Palavra de Deus: “Antes, rejeitamos as coisas que por vergonha se ocultam, não andando com astúcia nem falsificando a Palavra de Deus; e assim nos recomendamos à consciência de todo o homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade”, 2Co 4.2.

Tendo em vista a situação hodierna e o que nos diz as Sagradas Escrituras, urge enfatizarmos a necessidade da busca do padrão bíblico para a Igreja. Paulo exortou Timóteo a guardar o ensino da Palavra de Deus transmitido por ele. “Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e na caridade que há em Cristo Jesus”, 2Tm 1.13.

Assim como Moisés, que ordenou que se fizesse o Tabernáculo conforme o modelo que lhe foi entregue por Deus no monte, devemos observar à risca o padrão bíblico para a Igreja, pois a Palavra de Deus é o nosso manual de vida, nossa única regra de fé e prática. “Os quais servem de exemplar e sombra das coisas celestiais, como Moisés divinamente foi avisado, estando já para acabar o tabernáculo; porque foi dito: Olha, faze tudo conforme o modelo que no monte se te mostrou”, Hb 8.5. Paulo, em 1 Coríntios 3.10 e 13, falou sobre a importância de termos cuidado com a forma como edificamos.

Há 14 palavras-chaves (ou frases) em Atos 2. Essas expressões marcaram o primeiro Pentecostes, indicando fatos que devem acompanhar o verdadeiro Pentecostes através dos tempos. Vejamos uma por uma.

Pentecostes – “E cumprindo-se o dia de Pentecostes”, At 2.1. Em Levítico 23, Deus estabeleceu sete festas sagradas para Israel observar, as quais prefiguravam de antemão todo o curso da História da Igreja. Essas festas sagradas falam também do caráter alegre que iria caracterizar a Igreja. Festa pressupõe alegria. Lembremo-nos que Jesus sempre foi um homem alegre, apesar de viver à sombra da cruz!

Das sete festas sagradas de Israel, a quarta era a de Pentecostes (Lv 23.15-16), também chamada de Festa das Semanas (Dt 16.10) e Festa das Colheitas (Êx 23.16). A Festa de Pentecostes ocorria no terceiro mês (Sivã) e durava um dia. Dia seis de Sivã, que corresponde mais ou menos ao nosso mês de junho.

A Festa de Pentecostes era precedida por três outras festas conjuntas: a Páscoa, em 14 de Abibe; Festa dos Pães Asmos, de 15 a 22 de Abibe; e Festa das Primícias, em 16 de Abibe. As três levavam oito dias e eram celebradas no mês de Abibe, que é o primeiro mês do calendário sagrado de Israel. O primeiro mês do calendário civil era Tisri, que corresponde mais ou menos ao nosso mês de outubro.

A Festa de Pentecostes era seguida de três outras festas: Festa das Trombetas, no 1° de Tisri; Expiação, em 10 de Tisri; e Festa dos Tabernáculos, de 15 a 21 de Tisri. As duas primeiras duravam apenas um dia cada uma, enquanto a última durava sete dias. O dia da segunda também era conhecido como “O grande dia da Expiação”. Como pode se ver, essas três festas ocorriam no mesmo mês, Tisri, o início do ano civil de Israel.

Pentecostes era a festa central das sete que o Senhor determinou para Israel observar em Levíticos 23. São 3+1+3. Essa centralidade fala da importância do batismo no Espírito Santo para a Igreja, e do equilíbrio espiritual que dele resulta.

Ninguém sabe ao certo o dia do natal de Cristo, nem o dia de sua morte, mas todos sabemos o dia da sua ressurreição (o primeiro da semana), bem como o Dia de Pentecostes (o 50° dia após a Festa das Primícias). Assim, a Festa de Pentecostes era uma profecia: 7×7 semanas + 1 dia= 50 dias, a contar da Festa das Primícias (Lv 23.15), a qual falava da ressurreição de Cristo (1Co 15.20). Essa colocação das festas também nos mostra que sem Páscoa, isto é, sem o Cordeiro de Deus, morto e ressurreto, não teríamos Pentecostes.

Recapitulando, a Páscoa era celebrada primeiro (14 de Abibe – um dia), sendo seguida por Pães Asmos (15 a 21 de Abibe – sete dias) e Primícias (16 de Abibe – um dia). Primícias e Pães Asmos, portanto, eram festas conjuntas.

Vejamos algumas particularidades sobre a Festa das Primícias e a de Pentecostes, conforme Levítico 23.9-14.

Na Festa das Primícias era movido perante o Senhor um molho (feixe) de espigas de trigo (Lv 23.10-11). Na Festa de Pentecostes eram movidos perante o Senhor dois pães de trigo (Lv 23.15-17). Isso falava da Igreja, que seria formada de judeus e gentios, formando, assim, um só corpo – o Corpo de Cristo (Ef 2.14; Jo 11.52). O feixe de espigas fala da união, mas os pães vão além. Eles falam de unidade (Ef 4.3). Em um feixe de espigas, os grãos estão simplesmente presos às espigas, porém isolados uns dos outros. Em um pão é diferente: o trigo é o mesmo, mas os grãos passaram por um multiforme processo e formam agora um todo, um corpo único. O derramamento pentecostal fez isso na formação da Igreja em Atos 2, e quer continuar a fazer o mesmo hoje.

 Todos – “Todos reunidos no mesmo lugar”, At 2.1. “Todos foram cheios do Espírito Santo”, At 2.4. “Do meu Espírito derramarei sobre toda a carne”, At 2.17. “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”, At 2.21. “Todos os que estão longe; tantos quanto…”, At 2.39. “Em toda alma havia temor”, At 2.43. “Todos os que criam estavam juntos”, At 2.44. “Todos” é uma palavra inclusiva. Isso indica que todos os salvos são candidatos ao batismo no Espírito Santo.
A salvação não é o batismo no Espírito Santo. Este deve seguir à salvação. Os discípulos do Senhor, juntamente com as mulheres, Maria e outras mais (At 1.13-14), já eram salvos antes do Dia de Pentecostes. A Palavra de Deus elimina qualquer dúvida nesse sentido (Jo 14.17; At 2.18, 38-39 e 19.2).

Reunidos – “Todos reunidos no mesmo lugar”, At 2.1. Isso indica não só união, mas unidade no Espírito Santo. Acabaram-se as diferenças pessoais e ali estavam todos juntos, reunidos. Pedro, João, Tomé, Felipe, Tiago, todos unidos.

Céu – “Veio do céu”, At 2.2. O que está ocorrendo em sua vida, igreja ou movimento religioso vem mesmo do céu? Ou vem simplesmente dos homens? “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?”, Jr 17.9. Ou será que vem do astuto enganador?
Jesus, antes de ser ascendido ao céu, se referiu ao derramamento do Espírito da seguinte forma: “E eis que sobre vós envio a promessa de meu Pai: ficai, porém, na cidade de Jerusalém, até que do alto sejais revestidos de poder”, Lc 24.49. Quando a experiência de Pentecostes se repetiu na casa de Cornélio, Pedro frisou que ela se deu “como no princípio” (At 11.15). Paulo exorta sobre o perigo de recebermos “outro espírito” de falsos profetas (2Co 11.4).

Som – “Veio do céu um som”, At 2.2. O Espírito Santo veio primeiramente como um som. Para quê? Para despertar os dormentes, acordar do sono espiritual, alertar do perigo, avisar, convocar para o trabalho, reunir (1Co 14.8) e para a Igreja louvar a Deus com “música de Deus” (1Cr 16.42 e Cl 3.16).

Vento – “Som como de um vento veemente e impetuoso”, At 2.2. O texto esclarece que não ouve vento mesmo, só seus efeitos sonoros. Vento fala de muitas coisas

a) Força impulsora, como nas velas dos barcos e nos moinhos.
b) O vento separa a palha do grão (Sl 1.4 e Mt 3.12). Ele separa o leve do pesado.
c) O vento move e movimenta águas e árvores.
d) O vento fertiliza, levando o pólen, a vida (Ct 4.16 e Jo 3.5,8).
e) O vento limpa árvores e campos.
f) O vento não tem cor, logo pode significar também a ausência de favoritismo, individualismo e discriminação.
g) O vento não pertence a um clima único. Ele é universal.
h) O vento move-se continuamente (Ec 1.6 e Gn 1.2).
i) O vento não tem cheiro, mas espalha perfume. Aqui podemos lembrar do papel do Altar do Incenso no Tabernáculo.
j) O vento quando se move é infalivelmente sentido, notado.
l) O vento refresca e suaviza o calor.
m) O vento (ar) alimenta e vivifica pulmões e a vida orgânica. Em Ezequiel 37.8-10, vemos nos corpos ossos, nervos, carne, pele, mas não vida, até que o Espírito assoprou sobre eles. Aleluia! Há muitos crentes por aí que têm de sobra “ossos”, “nervos”, “carne” e “pele”, mas falta-lhes a vida abundante do Espírito.
n) O vento é misterioso (Jo 3.8).

Devemos ter cuidados com as falsificações, com os ventos nocivos (Mt 7.25 e Ef 5.14).

Casa – “E encheu toda a casa”, At 2.2. A família cristã cheia do Espírito Santo tem um papel muito importante para a Igreja. A família é a primeira instituição divina na Terra. Foi por meio dela que o Senhor fundou a nação que traria o Messias ao mundo e também dela serviu-se para que nascesse o Messias. O Diabo luta com todas as suas hostes para destruir a família na face da Terra, inclusive dentro da Igreja, mas o Senhor tem provido salvação para a família. Antes de julgar o mundo com um dilúvio, Deus proveu salvação para Noé e sua família (Gn 6.18). Na noite em que Deus julgou os egípcios, os israelitas foram milagrosamente salvos pelo sangue do cordeiro. Ali, Deus instruiu cada família a tomar um cordeiro para si (Êx 12.3-4). “Serás salvo tu e a tua casa” é uma promessa de Deus para os chefes de família (At 16.31) e na promessa pentecostal toda a família está incluída (At 2.17).

Línguas – “Línguas repartidas como que de fogo”, At 2.3. O verdadeiro Pentecostes tem algo para se ouvir do céu (“veio do céu um som”), algo para se ver do céu (“foram vistas por eles línguas”) e algo para se repartir vindo do céu (“línguas repartidas”). Devemos observar algumas características das línguas estranhas

a) Línguas estranhas não precedem o derramamento do Espírito, mas seguem-se a ele. “Foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas”, At 2.4.
b) Línguas no derramamento espiritual indicam o Evangelho falado, pregado, cantado, comunicado. Porém, são línguas “como que de fogo”, não língua de flores.
c) Vários dons do Espírito Santo são exercidos através da língua, da fala.
d) Deus usou as línguas estranhas como sinal externo do batismo no Espírito Santo para demonstrar sua inteira posse e controle da nossa língua ao batizar-se (Tg 3.8).
e) Línguas estranhas como evidência física inicial do batismo no Espírito (Veja a lei da primeira referência, comparando Atos 2.4, 10.44-46 e 11.15).
f) Línguas estranhas como um dos dons do Espírito Santo (1Co 12.10,30).
g) Dons espirituais podem ser concedidos por Deus no momento do batismo no Espírito (At 2.17 e 19.6).

É importante ensinarmos nas igrejas a doutrina do batismo no Espírito Santo.

Fogo – “Línguas como que de fogo”, At 2.3. Esse fogo de que fala o texto sagrado é sobrenatural, celestial. Não é fogo estranho. Vejamos algumas características do fogo, e que podem ser aplicadas no campo espiritual

a) O fogo alastra-se, comunica-se.
b) O fogo purifica. Contra a impureza espiritual, a principal força é o Espírito Santo.
c) O fogo ilumina. É o saber, o conhecimento das coisas de Deus.
d) O fogo aquece. A Igreja é o Corpo de Cristo. Todo corpo vivo é quente.
e) O fogo, para queimar bem, depende muito da madeira, se ela é boa ou ruim.
f) O fogo tanto estira o ferro duro como a roupa macia.
g) Foi o fogo do céu que fez do templo de Salomão a Casa de Deus. Nós somos templos do Espírito Santo (2Cr 7.1 e 1Co 3.16).
h) “Quem nasce sob o fogo não esmorece sob o sol”.

Cheios – “E todos foram cheios do Espírito Santo”, At 2.4. Quanto mais cheia e mais alta, mais pressão e peso tem a caixa d’água. Assim é com o crente cheio do Espírito Santo. Lembremo-nos também que não é só o crente que fica cheio, o ambiente também: a casa – “E encheu toda a casa”, At 2.2. Outra coisa a se observar é que os símbolos e figuras manifestos no Dia de Pentecostes falam de poder, como fogo e vento. Poder, energia e força nós usufruímos, embora não saibamos defini-los plenamente (Jo 3.8).

Nações – “Todas as nações que estão debaixo do céu”, At 2.5. Jesus já havia feito uma declaração em Atos 1.8 sobre o revestimento de poder e a evangelização de todos os povos. Em Marcos 16.15, Jesus também fala de evangelização e missões. O verdadeiro movimento pentecostal terá que ser um movimento missionário. Deve ser um movimento que ora por missões, contribui para missões, promove missões e vai ao campo missionário.

A igreja que não evangeliza breve deixará de ser evangélica. Para os que pensam em missões, é importante lembrar a relevância da compreensão do fenômeno da transculturação hoje.

Zombaria – “E outros, zombando, diziam: Estão cheios de mosto”, At 2.13. Esses zombadores não eram pessoas ímpias. Eram pessoas religiosas. Hoje acontece a mesma coisa. Zombadores e críticos religiosos se levantam contra o genuíno derramamento do Espírito. Judas alertou quanto a isso: “Mas vós, amados, lembrai-vos das palavras que foram preditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo, os quais vos diziam que no último tempo haveria escarnecedores que andariam segundo as suas ímpias concupiscências. Estes são os que causam divisões, sensuais, que não têm o Espírito”, Jd 17-19.

Quando não aparece um Judas, traidor, do lado de dentro, aparece um Pilatos do lado de fora, ainda se defendendo, mas devemos fazer como Jesus: fazer a obra que Deus nos confiou, porque críticos e zombadores sempre teremos aqui.

Pedro – “Pedro, porém, pondo-se em pé”, At 2.14. Vemos, aqui, o homem de Deus na disposição da graça. Se analisarmos Pedro antes e depois do Pentecostes, vamos notar uma mudança enorme em sua vida. Dali para frente, Pedro jamais mudou (1Pd 1.1-5 e 2.4-5). Aqui, é importante frisar o cuidado da igreja com a teologia modernista, liberalista e especulativa, que está permeando o mundo e procura mudar o perfil da Igreja.

Palavra de Deus – “Pedro disse-lhes: Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel”, At 2.14-15. No Dia de Pentecostes, a primeira pregação da Igreja foi pura exposição da Palavra de Deus (At 2.16-36).
Nosso ministério e nossa congregação experimenta um abundante e poderoso ministério da Palavra? A pregação e o ensino fundamental têm endereço certo: o coração do ouvinte. “E, ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração”, At 2.37. Há atualmente um esvaziamento da Palavra de Deus no púlpito de inúmeras igrejas. E como está a sua igreja neste particular? O tempo que deveria ser da Palavra de Deus é ocupado por música, canto profissional (não genuíno louvor) e atividades sociais, restando apenas alguns minutos para a pregação da palavra de Deus? É a falta da Palavra que gera elevado número de retardados espirituais nas igrejas.
É preciso vigilância com os chamados hinos especiais duplos e triplos de cantores, conjuntos e corais em nossos cultos. Devemos atentar para a dosagem e equilíbrio na adoração a Deus (Ex 30.34-38 e 2Cr 29.27). Devemos considerar a expressão “porão em ordem”, em se tratando de holocausto ao Senhor (Lv 1.7-8,12 e 1Co 14.40).

Façamos agora algumas considerações sobre o genuíno Pentecostes. Vejamos algumas das coisas que ocorrem no primeiro Pentecostes

a) Obediência à vontade do Senhor (Lc 24.49 e At 1.12-14) – A desobediência é um entrave à operação divina (At 5.32).
b) União e unidade entre os crentes (At 1.14; 2.1 e Ef 4.3) – Pensemos em João, Pedro, Tomé e outros naquele dia. Apesar de todas as suas diferenças, estavam todos reunidos e unidos.
c) Oração perseverante e unânime (At 1.14).


Conservando o Pentecostes

Na Lei havia apagador de fogo (Êx 25.38), mas na Graça não há (Mt 12.20). “Não apagueis o Espírito”, 1Ts 5.19. A conservação do Pentecostes vem pela constante renovação espiritual do crente. Tito 3.5 nos fala da regeneração seguida de renovação: “Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo”.

Há vários textos bíblicos no Novo Testamento que nos falam sobre a renovação espiritual do crente: At 4.8,31; 6.3; 7.55; 11.24; 13.9; 13.52; Rm 12.2; 2Co 4.6; Ef 4.32; 5.18 e Cl 3.10. No Antigo Testamento, quanto à vida espiritual renovada, temos o exemplo de Davi: Sl 92.10; 103.5; 104.30; 119.25,37,40,50,88,93,97,154,156 e 159.


Sobre o batismo no Espírito Santo

O derramamento do Espírito sobre o crente é chamado de batismo (At 1.5 e Mt 3.11). Em todo batismo tem que haver três condições: o candidato a ser batizado, o batizador e o elemento em que o candidato vai ser imerso. No batismo com ou no Espírito Santo, o candidato é o crente, o batizador é o Senhor Jesus e o elemento ou meio em que o crente é imerso é o Espírito Santo.
Há diferença em ser cheio do Espírito Santo e ser batizado no Espírito Santo. Uma garrafa pode estar cheia de água e não estar batizada em água. Ela estará cheia e batizada quando estiver cheia d’água e imersa na água (Dt 34.9; Mq 3.8 e Lc 1.67).

Por fim, um esclarecimento sobre a passagem de João 20.22: o texto não se refere ao batismo pentecostal. Temos o primeiro sopro divino vivificando e animando o homem material – Adão em Gênesis 2.7. O segundo sopro divino, vivificando e animando o homem espiritual, o crente, é o registrado em João 20.22. O terceiro sopro divino é o batismo pentecostal, capacitando o crente para o serviço do Senhor (At 1.8). O primeiro homem, o homem natural, adâmico, teve uma vocação terrena (1Co 15.47). O novo homem, criado em Cristo ressurreto, tem uma vocação espiritual, celestial, santificante (Hb 3.1 e Ef 4.24).

Pr. Antonio Gilberto.