A Cruz

Decidi escrever um capítulo sobre a cruz após ter lido o livro “Comprados com sangue”, do filósofo cristão Derek Prince (1915 – 2003). Prince considerava a cruz como o centro da fé cristã e de todo e qualquer ensinamento proveniente do cristianismo, afirmando que ela dá sentido e poder ao evangelho e à fé, que nela está a fortaleza de todo aquele que crê e que não há nada comparável a ela em toda a história da humanidade ou em qualquer outra religião. Ele disse: “Nenhum outro sistema religioso – islamismo, budismo, hinduismo, ou qualquer outra religião ou seita – possui qualquer coisa que corresponda ou se assemelhe, remotamente à cruz. Além disso, a cruz ancora a fé cristã à História. Maomé, ao contrário, recebeu sua revelação em uma caverna desconhecida, desvinculada de qualquer outra situação particular ou série de eventos. Em geral, os filósofos especulam no abstrato. Porém a mensagem da cruz está relacionada a um acontecimento especifico da História” (Comprados com Sangue, p. 18 e 19, Graça editorial, Rio de Janeiro, 2009).
Por falar na cruz e sua relação com acontecimentos históricos, sabemos que a história da igreja exerceu uma forte influência negativa sobre a cruz. Quando falo “cruz” não estou me referindo ao objeto que se pendura no pescoço ou na parede, pois este é apenas um símbolo daquilo que a cruz representa. Refiro-me ao que está por traz deste símbolo, ou seja, refiro-me ao próprio Cristo e à mensagem de amor e de salvação trazida com a Sua crucificação. A influência negativa que a igreja exerceu sobre a cruz se deu durante a idade média, ou idade das trevas, como ficou conhecida por ter sido um período “negro” na historia da humanidade, em virtude das guerras e perseguições religiosas que não só desvirtuaram o evangelho de Cristo, manchando tudo aquilo que a cruz representa, mas também causaram um irreparável atraso intelectual, científico e cultural, tendo em vista o fato da igreja católica caçar todos os que buscavam respostas por meio da ciência ou de qualquer outra coisa que fosse alheia ao catolicismo, pois temiam que a dependência da ciência, por exemplo, ameaçasse a hegemonia da igreja, causando a independência dos fiéis.
Na verdade, a igreja católica da idade média temia não apenas coisas como a ciência e a filosofia, ela temia tudo que levasse o homem a pensar, inclusive a própria bíblia, pois todos aqueles que conseguiam ler as escrituras sagradas passavam a questionar a igreja. Digo conseguiam ler porque, na época, a igreja mantinha a bíblia nos seus idiomas originais, o hebreu, o grego e o latim, punindo com a morte os que tentavam traduzi-la, como foi o caso do pastor protestante, William Tyndale (1484 – 1536), o primeiro a traduzi-la para o inglês. Tyndale era um erudito, fluente em sete idiomas: Hebreu, grego, latim, espanhol, francês e imglês. Ele se tornou tão conhecedor da bíblia que ao discutir com um membro do clero católico, um papista fanático, este foi incapaz de refutar sua racionalização bíblica. Ao se ver sem argumentos, o papista disse: “Seria melhor que ficássemos sem as leis de Deus do que sem as leis do Papa”. Ao que Tyndale respondeu: “Desafio o papa e todas as suas leis; e se Deus me poupar a vida por muitos anos, levarei um garoto que conduz o arado a conhecer mais a Escritura do que vós”.
Tyndale deixou claro que nem mesmo os arrogantes membros do clero católico da época conheciam as escrituras tão bem quanto pensavam conhecer. Eram tomados por tamanha idolatria ao Papa que achavam que conhecer as leis dele era o mesmo que conhecer as leis de Deus. Ainda hoje vemos um resquício disso no catolicismo, pois doutrinas e dogmas daquela época, dos quais alguns são biblicamente infundados, ainda regem a igreja católica, como é o caso dos dogmas que
Mais tarde, em 1536, Tyndale foi queimado vivo, seu único crime foi tentar levar o povo leigo à verdade. Ele queria que todos pudessem entender a bíblia em sua própria língua, desde o camponês até a corte real, o que era considerado um pesadelo para a igreja católica, pois, se o povo se tornasse tão letrado a ponto de debater com o clero e avaliar a conduta e as doutrinas da igreja, o catolicismo perderia seu domínio absoluto sobre as crenças e o pensamento dos fiéis, perdendo assim o seu poder de influência sobre os povos e, conseqüentemente, sobre os reinos.
Não é novidade que a história da igreja católica, especialmente durante a idade média, não possui características muito cristãs, já que envolve sede pelo poder, ganância, soberba, intrigas, perseguições, guerras, assassinatos, heresias, tais como a venda de indulgências, entre outras barbaridades absolutamente contrárias aos ensinamentos de Jesus Cristo. O pior de tudo o que aconteceu nessa era negra do catolicismo é que toda essa sujeira foi cometida em nome da cruz que, devido a isso, deixou de ser um símbolo que representa o amor de Deus e a Sua oferta de salvação, para se tornar um símbolo negativo, que representa, entre outras coisas, o de abuso de poder.
A cruz ficou diretamente associada à opressão, perseguição e morte, pois estava estampada nos uniformes, armaduras, escudos, estandartes, e até mesmo nas armas dos cruzados e dos cavaleiros templários, e era em nome dela que a igreja praticava a sua inquisição e as suas cruzadas. Os exércitos “de Deus”, como se consideravam, marchavam com a cruz exposta a sua frente e tudo isso deu a ela uma conotação não só errada, mas contraria ao seu real significado. Por isso, vemos que a história da igreja cristã manchou a cruz de sangue e, alem do sangue de Cristo, agora continha o sangue de milhares outros “inocentes”, homens, mulheres e crianças, que se recusavam a reconhecer a hegemonia católica. Talvez seja por conseqüência disso que hoje, grande parte da humanidade não tenha fé na cruz, nem a trate com seriedade ou com o devido respeito.
A cruz pode ter sido suja de sangue em virtude da idade média, mas é obrigação de todo cristão se unir, tanto católicos quanto protestantes, para limpá-la, deixando nela apenas o sangue de Cristo, que é o que o único que nos purifica e nos salva. A reforma protestante tinha esse objetivo, pois queria resgatar as doutrinas, os princípios e os valores do cristianismo primitivo, embora hoje essa vertente do cristianismo também sofra com a corrupção do coração humano dentro das igrejas. Nós cristãos, precisamos nos unir e aceitar a Cristo, e apenas a Cristo como Senhor e Salvador, e a Sua palavra como verdade, baseando nossa vida no que está realmente escrito, sempre confrontando as escrituras sagradas com o que os nossos sacerdotes pregam. Enquanto todos nós não estudarmos igualmente a bíblia e não nos comportarmos de acordo com seus ensinamentos, a cruz nunca será levada a sério pelos ateus e pagãos.
Precisamos parar de considerar que tudo que os sacerdotes nos dizem é a pura verdade e parar de achar que eles são os únicos que conhecem a palavra de Deus e passarmos a conhecê-la nós mesmos. Devemos colocar a luz da bíblia sobre tudo que nos é ensinado, chega de fé cega na igreja, seja católica ou protestante. É por causa disso que o cristianismo perdeu a força e está como está hoje, moralmente e espiritualmente falando. Até os próprios cristãos não estão levando a serio a Palavra de Deus, pois muitos saem para farrear na sexta e no sábado e no domingo vão à igreja, como se isso apagasse sua iniqüidade dos outros dias. Isso nada mais é do que gente biblicamente e espiritualmente ignorante que quer barganhar com Deus, peca durante a semana e vai à igreja no domingo achando que vai zerar a conta: “Olha, Deus, ontem eu me embriaguei, fiz um sexozinho básico, mas não se preocupa não, hoje eu vou para a igreja, está bem?” Esse tipo comportamento “cristão” é o que continua manchando a cruz com o pecado. É o cristão não convertido, que bate ponto na igreja como quem cumpre uma obrigação. Não houve mudança, nem o novo nascimento.
Precisamos obedecer à cruz e não à igreja, pois a igreja foi estabelecida por Jesus apenas para que possamos nos congregar enquanto povo de Deus e não para nos dizer o que fazer e como agir, para isso Jesus deixou a Sua palavra. A única instrução que Jesus deu a Pedro foi para apascentar Suas ovelhas, lembrando que apascentar significa conduzir ao pasto que, neste caso, significa conduzir ao alimento espiritual, ou seja, à Palavra de Deus, a qual é Jesus. Então a ordem de Pedro foi nos alimentar com o evangelho, nos conduzindo a Jesus, e apenas isso, não foi para ele criar doutrinas, nem santificar ninguém, até porque a bíblia diz que santificar é papel do Espírito Santo.
Precisamos olhar mais para cruz e menos para os homens e seus pecados, pois nosso foco e nosso alvo não é o homem, mas Deus. Muita gente não quer ser evangélico, por exemplo, porque alguns pastores são corruptos, isso caracteriza uma imaturidade espiritual sem tamanho, isso é focar no homem e esquecer de Deus. Quer dizer então que eu vou perder minha salvação por causa do pecado dos outros? Ora, tenha a santa paciência! Se um determinado pastor é corrupto, simplesmente não vou às reuniões onde ele prega, vou a outras, mas certamente não vou deixar de ouvir a verdade por causa das mentiras de alguns. O mais importante é ir onde a Palavra da cruz esteja sendo pregada conforme ela está escrita na bíblia, pois a corrupção humana sempre existirá e todo aquele que não busca a Deus por causa da iniqüidade do homem já está condenado.
Devemos questionar mais os nossos líderes religiosos e rejeitar as doutrinas de nossas igrejas que não estejam de acordo com a bíblia, mas, para sabermos a diferença do que esta ou não na bíblia, precisamos nos acostumar a estudá-la. É por isso que até hoje somos mais fantoches das denominações religiosas do que servos de Deus. Não estou falando que temos que nos revoltar contra as religiões, pois o que menos precisamos é disso, isso pode até acabar com o cristianismo de vez. Digo apenas que precisamos deixar de ser religiosos e passarmos a ser cristãos, deixarmos de fazer as coisas que as religiões nos dizem para fazer o que Cristo nos disse. Precisamos nos unir e promovermos dentro de cada um de nós uma reavaliação espiritual para que a cruz crie um brilho ainda maior do que seu brilho inicial dos tempos do cristianismo primitivo.
Mas, afinal, porque precisou Jesus morrer para que fossemos livres do pecado? Deus é todo poderoso, então porque Ele simplesmente não fez com que todos os nossos pecados fossem perdoados? Porque para a expiação dos pecados Ele estabeleceu, primeiramente o sacrifício de animais, como mostra o velho testamento e, por último, o sacrifício de Seu próprio Filho?
Eu não entendia o sentido desses sacrifícios, até que, após uma oração, em que pedi a Deus uma revelação sobre isso, recebi a resposta. A resposta de Deus me veio como normalmente vêm Suas respostas às perguntas dos homens feitas em oração: Através de um pensamento. Entretanto, não um pensamento comum, que possui uma seqüência idéias, uma linha de raciocínio, que nos levam a uma resposta, a resposta de Deus vem como se fosse uma iluminação, uma idéia repentina e esclarecedora que surge em nossa mente, a qual sabemos com todo nosso ser que é a resposta definitiva, que é a verdade. É como se fosse a conclusão de um raciocínio sem que haja o raciocínio, pois simplesmente surge em nossa mente. Enfim, em minha opinião, eu considerava os holocaustos, ou seja, sacrifícios ofertados seguidos de morte, como sendo uma prática pagã, pois até mesmo a bíblia cita exemplos de rituais religiosos pagãos em que se assassinava, como é o caso do livro de Rute que cita um ritual ao deus dos Moabitas, chamado Moloque, no qual crianças eram mortas para homenagear o deus.
As revelações que Ele me deu para os meus questionamentos foram as seguintes: Por que foi preciso o holocausto de Jesus para a expiação dos pecados da humanidade? – Porque, desde Abraão, estabeleci que apenas através de um holocausto, ou seja, de uma oferta de morte, poderia expiar os pecados de uma pessoa, por isso estabeleci primeiramente o holocausto de um animal, o qual tinha que ser o mais puro e imaculado que a pessoa pecadora possuía. Desta forma, quando Eu enviasse Meu Filho, puro e imaculado, a humanidade estaria aberta para entender que através do holocausto Dele pecados seriam perdoados. Tendo em ista que todos já estariam habituados a considerar um holocausto como forma de expiação. Por que precisou haver sangue, porque morte? – Por causa da natureza do ser humano. Na época de Abraão o bem mais preciso que se podia ter eram animais, valiam, inclusive, como moeda, e por isso os homens os queriam muito bem. Percebi que lhes pedindo o melhor de seus animais para a expiação do seu pecado, isso imputaria neles tanto um sentimento de culpa, por ser o culpado pela morte de um animal tão puro, imaculado e, principalmente, inocente, como também culpa por trazerem sobre si um prejuízo, neste caso, financeiro, porém Minha intenção era a de que percebessem que o pecado lhes traz alguma forma de prejuízo, além da culpa. Por que Seu próprio Filho? – Para mostrar Meu amor pela humanidade.
O Senhor estabeleceu primeiramente o sacrifício de animais? Porque os animais, além de puros, são inocentes e sem pecado, assim como Meu Filho.
Voltando a mencionar o livro de Derek Prince, outra coisa importante que ele disse foi: “Se a cruz não estiver no centro de nossa vida, nossa fé perderá sentido e poder. Terminaríamos com uma lista inócua de generalidades morais ou, ainda com um padrão de conduta impossível de ser alcançado” (Comprados com Sangue, p. 19, Graça editorial, Rio de Janeiro, 2009). Disse ainda: “Sem ela, talvez, tenhamos boa moral, um monte de ótimas intenções e excelentes sermões, mas não teremos resultados significativos” (Comprados com Sangue, p. 20, Graça editorial, Rio de Janeiro, 2009). Concordo com ele, digo que sem a cruz ninguém se salvaria, tendo em vista que o padrão moral e de conduta estabelecido por Deus, através das leis de Moisés e dos ensinamentos dos profetas, jamais podem ser atingidos pelos homens sem o auxílio da cruz. Se dependesse somente de seguir tais leis e ensinamentos nenhum de nós se salvaria, daí a importância da cruz, o que realça o seu papel como nossa única esperança de salvação.
Em toda a história da humanidade apenas Jesus atingiu este padrão, mas apenas porque além de humano Ele era Deus, apenas porque o Espírito Santo estava dentro Dele e não somente ao seu redor como Ele fica nos demais homens. Deus é conosco através do Seu Santo Espírito, mas Deus não era “com” Jesus, Ele era “em” Jesus. O Espírito Santo está no meio de nós, mas, em Jesus, Ele estava dentro Dele. O Espírito Santo nos é dado por medida, mas a Jesus Ele foi dado sem medida, como afirmam as escrituras: “Porque aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus; pois não lhe dá Deus o Espírito por medida”; (João 3: 34). Contudo, o Espírito Santo pode também habitar em nós, caso decidamos viver em santidade, é por isso que aqueles que verdadeiramente crêem e se santificam conseguem resistir ao pecado com muito mais facilidade do que os descrentes. O Espírito Santo neles lhes dá a força necessária, todavia, embora a força provenha de Deus, o desejo de buscar a santificação deve partir de nós mesmos, o qual só é possível por causa da cruz, pois é ela que nos traz esperança.
Foi exatamente quando a humanidade separou a cruz da moral, ou seja, quando deixamos de atribuir a Deus a autoria dos padrões de conduta moral, que a moral perdeu sua força. Quando começamos a separar os ensinamentos de Cristo, do próprio Cristo, ou seja, quando começamos a não mais dizer que os ensinamentos da moral provêm de Deus, a moral perdeu a força. Por exemplo, quando dizemos que não devemos mentir porque é feio, em vez de dizer que não devemos mentir porque a mentira desagrada a Deus, a mentira ganha força, uma vez que perde seu referencial maligno e a verdade, por sua vez perde o seu referencial divino.

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