• Martinho Lutero: Um novo cristianismo

    Quem vive no século 21 costuma ter dificuldade para entender a obsessão dos antigos europeus com o fim do mundo. Para um ex-monge que viveu no século 16, porém, era difícil não acreditar que o Apocalipse estivesse chegando. Ele deixou isso claro ao comentar o livro do profeta Daniel – um dos textos bíblicos que preveem o fim do mundo. “Tudo aconteceu e está consumado”, escreveu Martinho Lutero por volta de 1530. “O Império Romano [o Sacro Império Romano-Germânico] está no fim, os turcos batem à porta, o esplendor do papismo se desvaneceu e o mundo está rachando por toda parte, como se fosse cair aos pedaços.”

    Se ainda estivesse vivo, é possível que Lutero ficasse decepcionado com a demora para que o Apocalipse ocorresse. Mas ele não forçou tanto a barra ao afirmar que o fim estava próximo. Graças ao ex-monge alemão e a uma geração de reformadores religiosos, um mundo, pelo menos, já tinha acabado: aquele que, durante mais de 1100 anos, unira os cristãos do Ocidente. No lugar de uma só igreja, monolítica, dominada pela supremacia do papa em Roma, metade da Europa Ocidental foi sendo tomada por igrejas que consideravam a velha tradição católica como uma corrupção inaceitável dos ideais cristãos.

    Esse desejo de renovação espiritual foi um dos pilares da Reforma Protestante. Mas como ela escapou de virar apenas outra “heresia” esmagada pela Igreja? O contexto histórico ajudou. Alguns camponeses, por exemplo, viram na Reforma a chance de corrigir injustiças do sistema feudal. Enquanto isso, no topo da sociedade européia, nobres sentiram que o grito dos reformadores era um ótimo pretexto para arrancar o poder de papas, cardeais e arcebispos. A mistura de intenções puras e objetivos interesseiros ajudou a Reforma a ir longe e redefiniu o mapa da Europa.

    Tremor nas fundações

    No começo do século 16, falar em “reforma” era conversa velha. Fazia centenas de anos que os intelectuais e místicos europeus malhavam a bagunça generalizada que parecia ter tomado conta da Igreja. “Na Idade Média, a palavra reformatio estava na boca de todos, assim como ocorre hoje com a palavra ‘democracia’. E se caracterizava pela mesma multiplicidade de significados”, diz o holandês Heiko Oberman, um dos grandes estudiosos da Reforma, no livro Luther: Man Between God and the Devil (“Lutero: o homem entre Deus e o Diabo”, inédito no Brasil).

    Os críticos atacavam a vida de riqueza e decadência dos líderes católicos e ficavam exasperados com a maneira como os altos cargos da hierarquia eclesiástica (que muitas vezes eram acompanhados pela posse de ricos feudos) viravam moeda de troca política. Mas o hábito que provavelmente mais escandalizava os intelectuais era a venda de indulgências. Com doações à Santa Sé, os cristãos mais abastados podiam, através de rezas por encomenda, reduzir o tempo no Purgatório e agilizar sua ida ao Paraíso – era quase como comprar um lugar no céu.

    Todos os defensores da tal reformatio, entretanto, queriam corrigir o cristianismo de dentro para fora. Quebrar a unidade da Igreja era algo quase impensável. “Havia dissidências, mas elas geralmente eram localizadas, excessivamente diversificadas e sem coordenação”, diz Euan Cameron, professor de Religião da Universidade Columbia, nos Estados Unidos.

    Quem deu uma mãozinha para tornar o reformismo mais radical foi o Renascimento. Com o declínio da Idade Média na Europa, a filosofia e a arte da Antiguidade estavam sendo redescobertas por estudiosos. Isso incluía os pensadores do começo do cristianismo e o texto original da Bíblia. Era a primeira vez em muito tempo que os acadêmicos da Europa Ocidental tentavam ler os Evangelhos em grego ou o Antigo Testamento em hebraico, deixando de se guiar apenas pelas versões em latim preferidas pela Igreja. Os textos antigos faziam seus leitores repensar as bases da própria fé e comparar o passado “santo” do cristianismo com seu presente mundano. O meio universitário europeu permitia uma certa liberdade para discutir esses temas.

    Além do Renascimento, profundas mudanças sociais completavam o cenário favorável à Reforma. Com o desenvolvimento do capitalismo, surgia um mercado europeu dinâmico, envolvendo banqueiros, artesãos e comerciantes que queriam se ver livres de amarras políticas e religiosas para negociar. Especialmente na Alemanha, a terra natal de Lutero, muitas regiões começavam a se ver mais como parte de uma grande nação alemã que como membros do velho Sacro Império (que se estendia da França à atual República Checa), muito influenciado pelo papado.

    Confusão na porta

    Num ambiente cheio de insatisfação com a Igreja, quem deu o primeiro passo para uma mudança séria foi um monge alemão com doutorado que dava aulas na Universidade de Wittenberg. Nascido em 1483, Martinho Lutero era filho de um camponês que enriquecera ao se tornar empresário da área de mineração. Contrariando os interesses do pai, que queria fazer dele advogado, Lutero decidiu entrar para um convento ao escapar com vida de uma tempestade de raios.

    O jovem se tornou um monge exemplar. Apesar disso, sua consciência vivia atormentada. Ele temia a justiça de Deus, acreditando que os seres humanos eram tão pecadores que jamais seriam capazes de alcançar a salvação. Estudando a Bíblia, ele concluiu que os cristãos só poderiam ser salvos pela fé: incapazes de se redimir por sua força interna ou por suas boas ações, os fiéis receberiam a salvação por meio da generosidade gratuita de Deus.

    O papa contra-ataca
    A resposta católica à Reforma 

    Papa Paulo III, que convocou o Concílio de Trento

    Roma demorou para formular uma resposta abrangente contra a ameaça da Reforma. Nos anos 1530, o Vaticano convocou uma comissão de religiosos de alta competência teológica e reconhecida moralidade para produzir um relatório sobre o que deveria mudar na Igreja. “O relatório, chamado de Consilium de Emendenda Ecclesia e apresentado ao papa em março de 1537, foi uma bomba”, escreve o historiador britânico Eamon Duffy no livro Santos e Pecadores – História dos Papas. A comissão disse que a culpa pela Reforma era do próprio Vaticano e listou uma série de medidas draconianas para botar a casa em ordem. Em termos de teologia, o texto chegava até a dar razão a Lutero em alguns pontos. Como dizia o cardeal inglês Reginald Pole, um dos autores, “os hereges (protestantes) não são hereges em tudo”. O próprio Lutero, aparentemente adorando tudo aquilo, fez questão de publicar uma tradução em alemão, com suas próprias – e irônicas – notas de rodapé.

    A coisa pegou tão mal que o relatório acabou arquivado. Mas a Igreja continuou seus planos de reforma interna com o Concílio de Trento, reunião realizada entre 1545 e 1563 na cidade italiana de mesmo nome. Nele, os católicos fizeram questão de não ceder um milímetro na parte doutrinária, teológica e organizacional, reafirmando coisas como o uso de imagens, a devoção a Maria e aos santos e a autoridade do papa. Mas, ao mesmo tempo, o Vaticano fez um esforço sincero para elevar o nível cultural e moral dos padres: foi nessa época que surgiram, pela primeira vez, seminários sérios – em que os futuros padres eram educados com rigor. Além disso, houve um impulso poderoso para converter povos que nunca tinham tido contato com o cristianismo. Por meio dos jesuítas e outros grupos missionários, a Igreja transformou a América Latina num domínio totalmente católico – e conseguiu inúmeras conversões na Índia, na China, no Japão e nas Filipinas. Pelo menos em termos populacionais, o catolicismo parecia ter perdido parte da Europa para ganhar o mundo.

    Se o raciocínio de Lutero estava correto, a prática das indulgências era ainda pior do que se costumava acreditar. A Igreja estaria basicamente fazendo propaganda enganosa, já que não teria poder para amenizar os pecados – cujo julgamento caberia apenas a Deus. Em 1517, Lutero escreveu uma lista de críticas sobre as indulgências, num texto que ficaria conhecido como as 95 Teses. Elas foram pregadas na porta da igreja do castelo de Wittenberg, à vista de todos. “O conteúdo teológico do documento não é especialmente importante. Sua importância vem do fato de que alguns editores com visão de negócios mandaram imprimi-lo, sem perceber que estavam instituindo uma revolução nas comunicações”, diz Robert Kolb, professor de Teologia Sistemática do Seminário Concórdia, nos Estados Unidos. Por volta de 1520, as 95 Teses e outros textos de Lutero tinham alcançado a incrível tiragem de 600 mil exemplares. Nada menos que 20% dos panfletos publicados na Alemanha entre 1500 e 1530 foram assinados pelo monge encrenqueiro – é como se, hoje em dia, um completo desconhecido passasse a ter o blog mais acessado do país.

    Em semanas, boa parte dos intelectuais da Europa ficou sabendo da polêmica. Muitos se puseram do lado de Lutero. Já a Igreja recusou o debate teológico proposto pelo religioso e o ameaçou de excomunhão em 1520. Lutero não quis se retratar. No ano seguinte, ele foi chamado diante do imperador Carlos V e da Dieta (algo como a câmara dos deputados) do Sacro Império. Continuou irredutível. A partir daí, embora tenha conseguido escapar, ele se tornou um herege condenado à morte.

    Templos modernos

    Após passar uma temporada escondido, Lutero voltou a dar aulas em Wittenberg, protegido pelo príncipe Frederico III da Saxônia. Dizia que só a Bíblia podia ser considerada a palavra de Deus e que todos os cristãos eram sacerdotes. Não tão longe dali, outra voz se erguia contra a Igreja. Na década de 1520, o padre Ulrico Zwinglio tinha lançado na Suíça um ataque às indulgências parecido com o de Lutero e também defendia a supremacia da Bíblia sobre as autoridades eclesiásticas. Zwinglio se tornou um dos líderes políticos de Zurique e acabou com a veneração de imagens de santos e com a música nas cerimônias religiosas. Alguns cantões suíços se uniram a Zurique, enquanto outros declararam guerra aos “hereges”. O próprio Zwinglio acabaria morto em combate, em 1531.

    Na Alemanha, alguns defensores das idéias de Lutero, como o padre Thomas Müntzer, começaram a interpretar a Reforma de um ponto de vista social. Afinal, se o único rei verdadeiro era Deus, por que continuar obedecendo à realeza? Camponeses, plebeus e até nobres se uniram a Müntzer e pegaram em armas. Entre 1524 e 1525, a Guerra dos Camponeses virou a Alemanha de pernas para o ar. Os nobres conseguiram massacrar os rebeldes – e foram apoiados por Lutero, que recusava o uso da violência defendido por Müntzer e considerava heréticas certas práticas dos revoltosos, como o batismo de adultos que já tinham sido batizados quando bebês.

    As nações de língua alemã não eram as únicas a sofrer a influência dos reformistas. Nas décadas de 1520 e 1530, por exemplo, o luteranismo se tornou tão influente na Escandinávia que acabou levando a um rompimento da região com Roma. Já na Inglaterra, o rei Henrique VIII (tão católico que chegara a escrever um tratado contra Lutero), queria que o papa anulasse seu casamento com Catarina de Aragão. O problema é que a rainha era tia do líder do Sacro Império, Carlos V, a quem o papa não queria desagradar. Em 1533, persuadido por conselheiros com inclinações protestantes, Henrique VIII resolveu se divorciar sem autorização papal. Nascia aí a Igreja Anglicana, cuja liderança coube ao rei britânico. “Anos antes, a Reforma na Inglaterra parecia impossível, mas acabou se instaurando”, diz o historiador Christopher Haigh, da Universidade de Oxford, na Inglaterra. A nova religião começou quase como um catolicismo sem papa, mas foi sendo cada vez mais influenciada pela Reforma, até ficar no meio do caminho entre protestantismo e catolicismo.

    O último golpe contra a antiga unidade cristã veio da França. Lá, um advogado chamado João Calvino desenvolveu doutrinas ainda mais radicais, que não só rejeitavam a autoridade do papa e a missa como consideravam que Deus predestinava apenas certas pessoas para a salvação. A partir de 1536, Calvino refugiou-se em Genebra, na atual Suíça, e, após vencer diversos conflitos, instituiu um sistema de governo dominado por sua visão do cristianismo. A cidade se tornou um centro de formação de missionários protestantes.

    Enquanto isso, na Alemanha de Lutero, nobres rompiam com a Igreja e aproveitavam para tomar suas terras e riquezas. Para brecar a onda de mudanças, o imperador Carlos V deu início a uma guerra civil no Sacro Império. Sem conseguir vencer pelas armas, ele assinou um acordo com os luteranos: a Paz de Augsburgo, em 1555. Graças a ela, cada príncipe ficou livre para determinar a religião de seu território. A divisão da Europa cristã em duas tinha acabado de virar lei. Nos 100 anos seguintes, guerras religiosas ainda matariam muita gente na Europa. Lutero, contudo, não viveria para ver a Paz de Augsburgo nem o sangue derramado depois. Casado com a ex-freira Katharina von Bora, ele morreria em Eisleben, sua terra natal, em 1546.

    Hoje, passados 500 anos da publicação das 95 Teses, protestantes e católicos já são capazes de dialogar pacificamente em debates sobre teologia. Mas, se não entram mais em guerra por causa de suas diferentes convicções religiosas, os dois lados ainda são antagonistas em disputas intensas. No Brasil, por exemplo, a Igreja Católica luta diariamente contra a perda de fiéis para o ramo mais jovem do protestantismo: as igrejas neopentecostais.

    As 95 Teses publicadas em 31 de Outubro de 1517.

    1 Ao dizer: “Fazei penitência”, etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.

    2 Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).

    3 No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula, se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.

    4 Por consequência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus.

    5 O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.

    6 O papa não pode remitir culpa alguma senão declarando e confirmando que ela foi perdoada por Deus, ou, sem dúvida, remitindo-a nos casos reservados para si; se estes forem desprezados, a culpa permanecerá por inteiro.

    7 Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.

    8 Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.

    9 Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade.

    10 Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.

    11 Essa erva daninha de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.

    12 Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.

    13 Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.

    14 Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais, quanto menor for o amor.

    15 Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero.

    16 Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semidesespero e a segurança.

    17 Parece desnecessário, para as almas no purgatório, que o horror diminua na medida em que cresce o amor.

    18 Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontram fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.

    19 Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza.

    20 Portanto, sob remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.

    21 Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.

    22 Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.

    23 Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.

    24 Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.

    25 O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.

    26 O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.

    27 Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].

    28 Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, podem aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.

    29 E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas? Dizem que este não foi o caso com S. Severino e S. Pascoal.

    30 Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.

    31 Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.

    32 Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.

    33 Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Deus.

    34 Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.

    35 Não pregam cristãmente os que ensinam não ser necessária a contrição àqueles que querem resgatar ou adquirir breves confessionais.

    36 Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remissão pela de pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência.

    37 Qualquer cristão verdadeiro, seja vivo, seja morto, tem participação em todos os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem carta de indulgência.

    38 Mesmo assim, a remissão e participação do papa de forma alguma devem ser desprezadas, porque (como disse) constituem declaração do perdão divino.

    39 Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar perante o povo ao mesmo tempo, a liberdade das indulgências e a verdadeira contrição.

    40 A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, pelo menos dando ocasião para tanto.

    41 Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor.

    42 Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia.

    43 Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.

    44 Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.

    45 Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.

    46 Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.

    47 Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.

    48 Deve-se ensinar aos cristãos que, ao conceder indulgências, o papa, assim como mais necessita, da mesma forma mais deseja uma oração devota a seu favor do que o dinheiro que se está pronto a pagar.

    49 Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.

    50 Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

    51 Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto – como é seu dever – a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extraem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.

    52 Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.

    53 São inimigos de Cristo e do papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas.

    54 Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela.

    55 A atitude do papa é necessariamente esta: se as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias.

    56 Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.

    57 É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam.

    58 Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior.

    59 S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.

    60 É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que lhe foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem este tesouro.

    61 Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos, o poder do papa por si só é suficiente.

    62 O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.

    63 Este tesouro, entretanto, é o mais odiado, e com razão, porque faz com que os primeiros sejam os últimos.

    64 Em contrapartida, o tesouro das indulgências é o mais benquisto, e com razão, pois faz dos últimos os primeiros.

    65 Por esta razão, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.

    66 Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens.

    67 As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tal, na medida em que dão boa renda.

    68 Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade na cruz.

    69 Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas.

    70 Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbido pelo papa.

    71 Seja excomungado e maldito quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas.

    72 Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.

    73 Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências,

    74 muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram defraudar a santa caridade e verdade.

    75 A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes ao ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura.

    76 Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados veniais no que se refere à sua culpa.

    77 A afirmação de que nem mesmo S. Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o papa.

    78 Afirmamos, ao contrário, que também este, assim como qualquer papa, tem graças maiores, quais sejam, o Evangelho, os poderes, os dons de curar, etc., como está escrito em 1 Co 12.

    79 É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insignemente erguida, equivale à cruz de Cristo.

    80 Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes conversas sejam difundidas entre o povo.

    81 Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil, nem para os homens doutos, defender a dignidade do papa contra calúnias ou perguntas, sem dúvida argutas, dos leigos.

    82 Por exemplo: por que o papa não evacua o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas – o que seria a mais justa de todas as causas -, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica – que é uma causa tão insignificante?

    83 Do mesmo modo: por que se mantêm as exéquias e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos?

    84 Do mesmo modo: que nova piedade de Deus e do papa é essa: por causa do dinheiro, permitem ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, porém não a redimem por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta, por amor gratuito?

    85 Do mesmo modo: por que os cânones penitenciais – de fato e por desuso já há muito revogados e mortos – ainda assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor?

    86 Do mesmo modo: por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos mais ricos Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?

    87 Do mesmo modo: o que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à remissão e participação plenária?

    88 Do mesmo modo: que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações 100 vezes ao dia a qualquer dos fiéis?

    89 Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências outrora já concedidas, se são igualmente eficazes?

    90 Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos.

    91 Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.

    92 Fora, pois, com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo: “Paz, paz!” sem que haja paz!

    93 Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo: “Cruz! Cruz!” sem que haja cruz!

    94 Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno;

    95 e, assim, a que confiem que entrarão no céu antes através de muitas tribulações do que pela segurança da paz.

     

     

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